quinta-feira, 17 de maio de 2018

19. criança também é gente

eu dou aula de inglês, né. e não é em uma escola regular, então eu tenho alunos variadíssimos de 06 a 70 anos. como eu não recebi absolutamente nenhum tipo de treinamento pra saber como lidar com eles e as suas diferenças, tive que aprender no dia a dia mesmo, na cara e na coragem, o que funciona e o que não rola pra cada um desses alunos.

lembrando que eu não sou formada em pedagogia, nem faço licenciatura, o que significa que a faculdade me preparou 0% pra lidar com crianças. pois bem.

tem esse menino que eu dou aula, o pedro. ele tem 07 anos. ele é um dos alunos que mais dão trabalho lá na escola (só não digo que é o pior de todos porque tem uma pequenininha que faz tanto escândalo chorando que alguns alunos já trocaram de horário só pra não estarem lá no mesmo momento que ela, mas ele fica fácil em segundo lugar no ranking).

quando o pedro começou as aulas de inglês, as professoras da matemática e do português vieram avisar que ele era uma criança difícil. e, realmente, nas nossas primeiras aulas ele me tirava do sério com uma facilidade impressionante. até que eu descobri como contornar a situação e, de repente, sem precisar de muito esforço, nossa relação ficou ótima e ele passou a ser uma criança fofinha e maravilhosa que nem as outras.

"e qual é o segredo?", você me pergunta. pois eu te digo: é tratar o menino com educação e respeito, em vez de perder a linha. simples assim. :)

no dia em que ele me fez chegar no meu limite, eu botei a mãozinha na consciência e pensei "eu não vou me descontrolar com esse menino, ele só tem sete anos. tem muito adulto que me irrita tanto quanto e eu mantenho a pose, por que com ele tem que ser diferente? o bichinho é pequeno mas também é uma pessoa, né? se sou capaz de me controlar com adultos insuportáveis, por que não com as crianças?". e aí o pedro se transformou. ele passou de reclamão irritante pra um menino incrível.

nesse dia, quando ele começou a dar show, em vez de eu "responder a altura" e perder a linha, que é o que ele tá acostumado a ver, eu sentei do lado dele e perguntei por que ele tava sendo mal educado. o menino me olhou confuso e disse "eu não sabia que isso era ser mal educado". a gente conversou e pronto, ele parou de dar piti e passou a se comportar bem. ele aprendeu que, se ele colaborar comigo, eu também vou colaborar com ele. depois que eu expliquei que a nossa relação é uma troca, ele nunca mais foi mal educado nas aulas de inglês. pelo visto, até aquele momento, ninguém tinha se dado ao trabalho de simplesmente dialogar com o menino.

pedroca realmente não é das crianças mais "fáceis" do mundo, daquelas que você manda e desmanda e a criança apenas te obedece, sem questionar. ele é inteligente e faz questão de saber os motivos de tudo o que acontece. por que aquela lição, por que ele tem que fazer as coisas de um jeito e não de outro, por que por que por que. e ele bate o pé e reclama sempre que não quer fazer alguma coisa, mas é só falar com o menino normalmente, respeitando a pessoinha que ele é, que tudo se ajeita.

antes o pedro ficava de cara feia a aula inteira, contando os minutos pra acabar e poder ir embora. ele mal respondia quando a gente perguntava alguma coisa. agora a gente conversa, brinca, dá risada e ele faz a aula feliz, porque se sente confortável naquele ambiente em que ele é bem tratado. pedroca virou uma das minhas crianças preferidas. <3  

terça-feira, 20 de março de 2018

88 anos, 8 meses e 14 dias


dona cida nasceu em 1929, lá no começo do século passado, e se despediu da gente há menos de uma semana.

filha de imigrantes italianos, nascida e criada em fazenda no interior do estado de são paulo, veio morar na capital e, aqui, conheceu o futuro marido: um alagoano descendente de negros e índios, um ano mais novo que ela. juntos, eles tiveram quatro filhos. um deles, o mais velho, é o meu pai. 

e isso é basicamente tudo o que eu sei sobre a história dela. 

minha avó me contou quando e como conheceu o meu avô, mas eu não sei quando eles se casaram. não sei se foi por "amor à primeira vista", se foi por pressão familiar, se foi porque os dois conversaram e decidiram que era a melhor das opções. ela nunca foi de falar muito sobre a própria vida. às vezes, no meio de alguma conversa, ela me contava casos aleatórios sobre eles, mas nunca em quantidade suficiente pra eu conseguir montar uma linha do tempo, por exemplo. dona cida era fechada demais, não se dava ao luxo de falar mais do que devia. não sei do que ela trabalhou, não sei quais planos ela tinha feito quando era menina, não sei sequer qual era a cor preferida da minha avó - mas associo a ela um tom bonito de azul claro, meio céu, meio piscina: a cor dos olhos dela.

apesar dessa carinha aí da foto, a dona cida nunca fez aquele estilo padrão de avó que eu via na tv. o meu sonho era ser neta da dona benta, pra comer um monte de coisa gostosa todas as tardes. dona cida só cozinhava porque comer faz parte da vida, não tinha essa de ficar fazendo bolinho pra agradar neto. lembro que uma vez fui almoçar com ela e reclamei que não queria comer o chuchu. como resposta, ouvi "você tá na minha casa, vai comer o que eu fiz. se não quiser, fica com fome". ela era grossa e mal educada como ninguém. mas não posso negar que às vezes batia uma inspiração e ela tentava encarnar a vovó bonitinha. fizemos rabanada juntas uma vez. não sei como é que conseguimos errar tanto, mas depois disso nunca mais nos arriscamos a tentar de novo. muitos anos depois, ela ainda dava risada lembrando dessa tentativa absolutamente frustrada.

ela era super irritada, não tinha paciência pra nada. vivia falando que tava com raiva das coisas, das pessoas. tudo era motivo pra mulher ficar de cara fechada. e sem precisar dizer uma palavra, ela já botava medo nos netos (ameaçava sempre com um chinelo na mão) e afugentava os vizinhos. mas por dentro ela era frágil que só. a menor das coisas já magoava a minha avó, ainda que ela tentasse ao máximo não deixar transparecer.

ela sofreu muito. guardou mágoa e rancor durante a vida inteira, se recusou a fazer os tratamentos de saúde que poderiam ter aliviado as dores que ela sentia, engoliu muito sapo enquanto foi casada... dona cida passou por tanta coisa nesses quase 90 anos que nem dava pra acreditar. lembro de olhar pra ela quando eu era pequena e pensar que a minha avó, tão alta, tão rígida, deveria ser uma fortaleza. de uns anos pra cá, ela já era só ruína.

mas ainda assim, mesmo já quase sem força nenhuma, esse ano ela ainda foi capaz de provar que o ditado popular é verdadeiro: vaso ruim não quebra. ou, pelo menos, dá mais trabalho do que o normal. aos 88 anos, lúcida mas com o corpo absolutamente debilitado, minha avó enfrentou um avc, deu um chapéu numa pneumonia e ainda lidou com outras infecções que vieram depois. eu sinceramente não pensei que ela fosse aguentar uma semana, mas ela ainda persistiu por dois meses. foi sofrido, foi ruim de ver, mas era a história dela. e ela aguentou até o final com uma força que eu não faço ideia de onde é que saía. 

dona apparecida, com 2 pês (eu achava tão chique esse nome), me deixou uma saudade tão grande que eu acho que nunca vai passar. mas eu sei que ela não via a hora de finalmente poder descansar em paz, sem sentir aquelas dores que viviam com ela há tanto tempo. por mais difícil que seja a despedida, eu sei que era egoísta demais querer que ela continuasse por aqui. já tava na hora de dizer tchau.

a vovó já foi, mas o amor e as lembranças vão ficar aqui bem guardadinhos até o fim da minha caminhada.

sábado, 6 de janeiro de 2018

laranja, amarelo e azul

2018 começou do jeito que eu menos gosto, mas que eu mais preciso: me lembrando que a vida é um troço maluco, incontrolável e sem explicação. levei um choque de realidade e, infelizmente, a bolha em volta de mim estourou. aquela bolha que me dava uma sensação falsa de segurança, que me colocava numa posição diferenciada, especial. percebi que eu não tenho nada de diferente, nada que me dê uma garantia extra. tô aqui como qualquer outro, suscetível a tudo como qualquer outro. e isso me deixa doida.


anteontem, quando vi esse pôr do sol incrível de tão bonito, minha cabeça tava fervilhando de coisas. eu queria escrever, queria tirar de mim esse monte de dúvida que tava me cercando. hoje, muitas horas depois, já bem mais calma, eu perdi o pique. é que eu funciono melhor quando tô inflamada, ou pelo menos minhas ideias fluem melhor. porque eu racionalizo menos. se eu começo a pensar demais, parece que eu fico travada. o que pega mesmo é que eu tenho medo de tudo que eu não entendo, de tudo que tá além da minha capacidade de raciocinar. e isso afeta desde a minha produção escrita até todo o resto, pra ser bem sincera. então eu não vou mais falar sobre o que eu queria, não vou mais tentar passar pro papel o que eu tava sentindo e pensando. vou deixar tudo isso guardadinho aqui pra uma próxima oportunidade, talvez. e vou falar de outra coisa, algo mais fácil, que me exige menos esforço. 


pôr do sol é um dos fenômenos da natureza (ou sei lá como a gente chama esse tipo de coisa) que eu mais amo. enche os olhos, enche a alma. é lindo, encanta, dá vontade de fazer durar por uma eternidade no céu. sabe quando o pequeno príncipe fala que tava num planetinha tão pequeno que viu o sol se pondo quarenta e três vezes no mesmo dia? que delícia que deve ter sido isso. sempre que eu vejo essa mistura de cores, eu agradeço. por estar aqui por mais um dia, por tudo o que eu tenho, por tudo o que eu ainda vou ter. e o que eu acho mais incrível é que o pôr do sol me faz sentir em paz. normalmente a natureza me assusta, a imensidão do universo me assusta, a força de tudo o que vai além do ser humano me assusta. mas as cores no céu quando o sol tá indo embora me deixam mais calma, elas me mostram que tá tudo bem. é como se fosse um dos únicos momentos do dia em que eu me reconcilio com o fato de a vida ser indomável, eu acho. é meio forte falar isso, talvez eu esteja exagerando, mas é a sensação que me dá.  


não sei de onde eu vim, não sei pra onde eu vou, não sei quanto tempo eu ainda tenho aqui. a única coisa que eu sei é que, se eu pudesse, eu também contemplaria o sol se pondo mais de quarenta vezes no mesmo dia. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

memória olfativa e seus mistérios

as adversidades da vida acabaram me afastando da minha madrinha, já faz muitos anos que a gente não tem contato uma com a outra. as lembranças que me restam da época em que passamos juntas são bem pontuais, já me esqueci de muita coisa (por exemplo, lembro de estar passando a novela o cravo e a rosa em um dia em que eu estava na casa dela, mas já não sei mais o que fizemos além de ver tv). eu não consigo mais lembrar de quase nada. nem do som da voz dela, nem de como ela estava vestida da última vez em que a gente se viu. nada.

até que esses dias a memória dela voltou nítida pra mim. sem mais nem menos, a imagem da minha madrinha brotou na minha mente assim que uma aluna sentou do meu lado. a princípio eu não entendi. elas não se parecem fisicamente, não têm o mesmo nome, a mulher nem falou nada que pudesse ser relacionado à minha madrinha. mas ainda assim a lembrança dela me atingiu em cheio.

a única coisa que eu consegui pensar foi que o cheiro de cigarro que a aluna exalava devia ser o mesmo da minha madrinha. e eu nem sabia que ela fumava (minha mãe confirmou que sim).

as bifurcações pelo caminho nos fizeram andar pra lugares diferentes (não a culpo por ter se distanciado e nem me culpo por ter aceitado isso tão bem), mas pelo visto ela continua comigo. fiquei feliz de constatar que ainda guardo um pedacinho dela tão presente dentro de mim - mesmo que ele esteja relacionado ao cheiro do cigarro, algo que eu não suporto.

madinha: onde quer que você esteja, espero que esteja bem. <3

quarta-feira, 26 de julho de 2017

eu caí no golpe do instagram

convenhamos que já faz muito tempo que eu tô na internet né, gente (não que fosse tudo mato quando eu cheguei, mas ainda era um lugar relativamente em construção). então me custa um pouco admitir que eu caí no golpe mais ridiculamente detectável de todos os que existem nessa famigerada rede mundial de computadores: o da vida perfeitamente feliz.

não é de hoje que a gente sabe que não dá pra confiar em tudo que a gente vê online, ainda mais no instagram. mas mesmo assim eu me deixei enganar. o twitter tá aí pra gente reclamar da vida, o facebook é um lixão a céu aberto, mas o instagram é uma desgraça!!! porque ali ninguém posta foto feia, ninguém coloca a parte ruim. é só comida gostosa, roupa bonita, role legal, viagem.. 

e que quantidade absurda de viagem, hein? eu fico com a impressão de que sou a única pessoa da história do brasil que tá em casa, absolutamente todas as outras tão viajando e se divertindo e conhecendo um monte de lugar lindo enquanto eu tô presa nessa rotina bosta de trabalho. 

só que a parte bizarra é que EU SEI que a vida de ninguém é assim tão maravilhosa. eu mesma só posto no instagram o que eu considero legal, não coloco foto minha em pé no ônibus às 20h30 chorando de fome. tem foto minha e do boy cheios de amor, tem selfie bonita de quando a autoestima tava alta, tem foto antiga de quando eu tava pagando de gatinha na praia. mas foto minha perdendo mais de uma hora no banco pra resolver um problema com o cartão é claro que não vai ter. a regra implícita do instagram é que ali a gente só expõe a parte boa.

e ainda assim, mesmo tendo plena consciência disso, eu fico mal vendo as fotos. mesmo que o meu próprio feed só tenha a parte bacana. parece que a vida de todo mundo é muito mais legal, muito mais interessante, muito mais divertida. a galera tá dando role na europa, tá conhecendo o brasil, tá indo pra restaurante caro. e eu tô na mesa do trabalho rolando as fotos e curtindo todas (todas mesmo, sou dessas que dá like indiscriminadamente) com aquele sentimento amargo de "não é possível que só eu tenha essa vidinha mais ou menos". 

já diria o ditado: todo mundo vê as pinga que eu bebo, mas não vê os tombo que eu levo. o problema é que, nesse momento, o que eu sinto é que só eu levo tombo. parece que a vida das pessoas só tem a parte da pinga. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

sobre o que realmente importa

eu sou 100% meninas que não conseguem viver o presente e ficam pensando incessantemente sobre o futuro (ansiedade né, que coisa boa), então é óbvio que eu já tenho um milhão de planos - e que eu não tenho necessariamente a pretensão de colocar todos eles em prática, porque sou ansiosa mas não sou tão trouxa assim e já me basta de decepção nessa vida. 

daí que eu separo esses planos em algumas categorias. tipo: "meta de vida", "seria muito legal mesmo se de repente isso acontecesse em algum momento", "farei quando terminar a faculdade", "quero antes dos 30", e coisa e tal.

um dos meus planos pra um futuro de preferência próximo (digamos que a categoria desse seja "o mais rápido possível mas tudo bem se for daqui a alguns anos a vida é assim mesmo") é pegar minha mochilinha, dar a mão pro boy e caçar um cantinho pra chamar de nosso em algum lugar longínquo desse mundão de meu deus. e na verdade nem precisa ser tão longínquo assim, ali no uruguai eu já me dou por satisfeita, mas o plano é que o nosso cantinho se encontre em terras estrangeiras. 

preciso fazer um adendo pra dizer que amo d+ a minha terrinha, então mesmo querendo muito ir morar fora (porque afinal de contas o mundo é muito grande e não tem a menor graça passar a vida inteira no mesmo lugarzinho sendo que tem tanta coisa incrível pra ver por aí) eu pretendo voltar obviamente pois brasilzão véio de guerra melhor país de todos apesar dos apesares etc etc etc.

eis que eu e o digníssimo senhor boy estávamos conversando sobre como seria a nossa vida morando em outro país e começamos a pensar em coisas sérias, tipo como a gente ia fazer pra pagar as contas, que tipo de visto a gente ia precisar pra entrar nesse tal outro país e ficar morando lá ("mas será que já dá pra entrar com visto de trabalho sem ter um trabalho antes???"), esse tipo de coisa. até que a gente se deparou com a maior das nossas agruras e já começamos a pensar em soluções pra superar esse transtorno, mas ainda não sabemos como driblar de vez esse obstáculo.

no momento a nossa maior preocupação é: E O PÃO FRANCÊS? COMO QUE A GENTE VAI VIVER SEM PÃO NA CHAPA DE MANHÃ MEU DEUS DO CÉU ISSO NÃO VAI SER NADA FÁCIL

porque convenhamos que não ter como se manter em outro país é um problema grave, mas não ter aquele pãozinho francês esperto pra matar a fome de manhã é um problema GRAVÍSSIMO!

terça-feira, 9 de maio de 2017

17 e 18. fazendo amigos no transporte público

não me sinto confortável conversando com gente desconhecida. pra mim é um sofrimento real ter que interagir com quem eu não conheço. fico sem saber o que fazer, o que falar, enfim. acho uó, de verdade. mas aparentemente tem algo na minha cara que faz com que toda e qualquer pessoa que passe pelo meu caminho puxe assunto comigo. não consigo entender o que rola, mas parece que eu tenho um ímã que realmente atrai as pessoas. apesar de andar na rua fazendo ~cara de poucos amigos~, bem fechada mesmo, pra tentar evitar ao máximo que os outros se aproximem (#meujeitinho), a galera continua me pegando pra cristo e vindo conversar.

daí que eu fiz "amigos" no ônibus esses dias.

eu tava de boinhas sendo meu livro até que sentou um adolescente do meu lado. a mãe dele tava junto e ficou em pé. falei pra moça que eu ia levantar pra ela sentar, porque tinha outro banco vazio e era só eu mudar de lugar. ela disse que não precisava, que não queria sentar. tentei voltar a ler o livro, mas o menino me ofereceu uma bisnaguinha pra comer. quis dar risada pelo absurdo da situação, mas só agradeci e voltei pra minha leitura. aí a mãe dele perguntou se eu podia abrir a janela, apesar de estar chovendo. ela fez uma piadinha sobre a água, eu dei risada por educação e desisti de voltar à leitura, porque percebi que aqueles dois não iam me deixar quietinha no meu canto.

guardei meu kindle na mochila e fui limpar meu óculos, porque as lentes estavam cheias de pinguinhos d'água (tomei chuva antes de chegar no ponto de ônibus). aí a mãe do menino começou a puxar assunto comigo - eu demorei pra perceber que era comigo, ignorei as primeiras duas frases da mulher - e contou que precisava fazer exame de vista, que o pai dela usava óculos e deveria ser hereditário. eu sorri, disse apenas "é, faz sim.." e acenei. ela continuou falando. daí o menino finalmente entrou na conversa e, desde então, não ficou quieto nem por um segundo.

primeiro ele me perguntou como eu fazia pra assistir a filmes 3d no cinema, já que uso óculos. depois, não sei como, o assunto mudou totalmente e ele me contou o dia dele inteirinho na escola. falou onde estuda, em qual série ele tá, qual matéria ele gosta, o que ele tinha comido no lanche... eu não sabia o que responder, só fiquei dando risada mesmo. primeiro porque rir é o que eu faço quando fico sem reação, segundo porque achei mesmo tão bizarro ele me falar tudo aquilo sem eu perguntar que dar risada foi meio natural. depois ele me contou onde mora, quantos ônibus pega pra chegar em casa, disse que tem um fluxo de funk na rua da casa dele de fim de semana que faz o ônibus mudar de rota e isso atrapalha o bairro todo... enfim. foram 30 minutos de ladainha. às vezes eu encorajava o menino a continuar, porque não dava mais pra fugir, às vezes eu me desligava da conversa e perdia uns dois minutos de fala. e assim fomos da hora em que eles entraram no ônibus até o ponto final, onde nós todos descemos.

eu não suporto conversar com quem eu não conheço no transporte público, mas também não consegui cortar o papo do menino e da mãe dele. os dois eram tão simpáticos que eu não pude evitar.

se eu preferia ter ficado quietinha lendo meu livro? definitivamente. se eu gosto de pensar na possibilidade de encontrar os dois de novo e retomar essa conversa? jamais. mas não foi de todo ruim. deu pra ver que eles ficaram felizes de encontrar um ouvido disposto a escutar tudo o que eles tinham pra dizer, ainda que não fossem lá grandes coisas.

vai ver a minha cara de poucos amigos não é tão eficiente quanto eu pensei que fosse...