sábado, 28 de março de 2020

você assistiu errado, tenta de novo!

em 2017, a pixar lançou o filme viva - a vida é uma festa, que gira em torno de uma família mexicana e da celebração do día de los muertos.


miguel, o menininho com o violão, briga com a família por querer seguir seu sonho de ser músico e acaba indo parar no mundo dos mortos. como consequência, depois de sair quase tudo errado, miguelito faz com que sua família seja ainda mais unida do que antes.

esse filme é INCRÍVEL!! a história é linda, é muito divertido, tem músicas ótimas, as personagens são maravilhosas (frida kahlo tá no filme!) e é tudo tão colorido!!!!

poucas coisas na vida me fazem tão feliz quanto essa cena aqui:


é de encher os olhos mesmo, muito bonito de assistir! e é emocionante pra caramba, o filme tem umas cenas de deixar a gente com lágrima nos olhos. pra coroar essa belezinha, a mensagem no final é super positiva! mas aparentemente nem todo mundo concorda com essa minha afirmação...

se você não assistiu ainda e não quiser ler spoilers, eu sugiro que você pare por aqui. e sugiro com ainda mais insistência que você assista a esse filme pra ontem porque ele é, de longe, um dos meus preferidos da vida inteira ♡

segundo a crença mexicana, o día de los muertos é quando as almas voltam "pro mundo dos vivos" pra visitar seus entes queridos. as famílias montam um altar com as fotos dos falecidos, flores, comidas e outros objetos que representem quem já morreu. (se eu tiver falando bobagem, please, me corrijam!) não sei até que ponto o filme é fiel à cultura mexicana e à essa celebração, então pra evitar falar alguma coisa errada vou me basear unicamente na história que a pixar tá contando.

no filme, pra um morto conseguir atravessar a ponte pro mundo dos vivos e visitar a família, a foto dele precisa estar nesse altar. sem a foto, a passagem dele é barrada. além disso, pra que esse morto não desapareça pra sempre, ele não pode ser esquecido no mundo dos vivos. ou seja, a lembrança dele do lado de cá é o que faz ele continuar existindo do lado de lá. pois muito que bem.

já no mundo dos mortos, depois de mil encontros, desencontros e reviravoltas, miguel conhece seu tataravô e descobre que, se não voltar urgente pro mundo dos vivos, o tataravô vai sumir. isso porque a única pessoa da família que ainda tinha lembranças dele era filha, que é a bisavó do miguel, e ela já tava bem velhinha e perdendo a memória.

contando com a ajuda de todos os familiares no mundo dos mortos, miguelito consegue retornar e é aí que a gente tem a cena mais emocionante do filme. com um violão, contrariando todas as regras da família no mundo dos vivos, ele canta pra bisavó a música que o tataravô compôs pra ela. assim, ele reacende a memória da véinha, que volta a lembrar do pai dela com mais força. e a bisavó chora. e o miguel chora. e os outros familiares (que não queriam que ele tivesse cantado) choram. e você que tá assistindo chora MUITO.


a princípio, parece uma cena meio angustiante, porque se todo mundo tá chorando então a coisa é triste. mas a consequência disso é que o tataravô não foi esquecido e, portanto, não desapareceu. ou seja: FICOU TUDO BEM. daí o tempo passa, a bisavó também falece e a gente vê pai e filha juntos, se abraçando e sorrindo, no mundo dos mortos. miguel colocou a foto do tataravô no altar, então dessa vez todos os familiares falecidos conseguem atravessar a ponte pra comemorar essa data ao lado da família. eles dançam, cantam, brincam, dão risada... o filme termina feliz!

na minha perspectiva, um dos pontos do filme é mostrar que essa é uma data positiva, que é uma forma muito bonita de celebrar a vida de quem já partiu e de manter viva a lembrança daqueles que já não estão mais aqui. mas teve muita gente falando que era uma das histórias mais tristes que a pixar já tinha feito, que não tinha condição de rever etc etc etc.

você aí que ficou tão impactado com a cena emocionante a ponto de não conseguir perceber a mensagem positiva que o filme deixa, vamo assistir de novo? garanto que você não vai se arrepender!

eu assisti pela primeira vez em 2018, achei incrível e amei cada segundo. fiquei bem sentida com a história, mas de um jeito bom. me emocionei com a determinação do miguel e achei linda a forma como a família dele volta a se entender depois de tanto tempo, sem contar no sorrisinho que eu abri quando vi que, no final do filme, ele tava lá bem pleno tocando seu violão. mês passado eu assisti de novo e gostei mais ainda! terminei de ver muito mais feliz do que eu tava antes de começar.

se você ficou triste quando viu, tenta mais uma vez. essa belezinha merece! ♡

sábado, 18 de janeiro de 2020

sorrir pra não chorar

2019 foi o ano em que eu perdi as esperanças.

parei de acreditar que as coisas iriam melhorar em algum momento próximo e aceitei que tava tudo ruim mesmo, que não ia acontecer um milagre divino pra resolver todos os problemas do mundo. a vida ficou cinza, mas pelo menos não me frustrei muito (só um pouco). 

o cenário político nacional foi horroroso, teve incêndio matando adolescente, incêndio destruindo floresta, prédio desabando, lama consumindo uma cidade inteira, 200 casos novos de feminicídio por dia, racismo a torto e a direito... e isso só no brasil, sem considerar que o mundo inteiro tava em colapso.

antes de sair de casa pra trabalhar eu já tava mal humorada. não tem como ser feliz vendo esse monte de notícia ruim às 7h da manhã.


depois de tomar meu café com gostinho de desespero, eu tinha que pegar um ônibus, o trem e o metrô pra cruzar a cidade e passar 8h do meu dia dentro de um escritório, embaixo de um ar condicionado da sibéria que me dava dor de cabeça todos os dias, quase sem ver a luz do sol - porque a claridade na tela do computador atrapalha a vista, claro. e ganhando pouco, como já era de se esperar.

se tudo corresse bem, meu trajeto de casa até o trabalho - e vice-versa - durava 1h15. como isso raramente acontecia (bem-vindo à cidade de são paulo!), normalmente eu passava quase 3h/dia só nesse ir e vir. não há bom humor que aguente esse tempo todo em pé, num transporte caro, precário e lotado, ouvindo que a água gelada tá 2 reais e tendo que dar licença pra pastor maluco pregar gritando na orelha de todo mundo. socorro.

daí que eu perdi a vontade de fazer as coisas. basicamente, eu tava seguindo em frente porque não tinha outra opção. fiquei triste, desanimada, desacreditando de tudo. a vida tava pesada, ficou difícil mesmo. em 2019 eu só reclamei. quando alguma coisa boa acontecia, eu era a pessoa que falava (ou pelo menos pensava, quando não dava pra externalizar) "tá, MAS...". sabe? tava foda.

e eu tentava evitar ser uma pessoa horrível e ranzinza, então fazia piada e sorria o tempo todo. fingia que tava tudo bem, mas na verdade eu queria gritar.

ninguém merece viver assim, pelo amor da deusa. então pra 2020 eu quero - e preciso - tentar ver as coisas pelo lado do copo meio cheio. ou pelo menos ver que o copo tá pela metade, sem focar necessariamente no fato de ele estar meio vazio.

o problema é que 2020 mal começou e já tá uma desgraça MAIOR do que o ano passado. aí fica complicado demais pra uma pobre mortal tentar encontrar positividade no meio desse mar de horror que a gente tá vivendo. me sinto até mal de tentar ficar feliz quando tá tudo dando tão errado. e o mais bizarro é que, aparentemente, as coisas não vão melhorar mesmo. daqui pra frente é só ladeira a baixo.

mas como não posso me afundar mais nas bad vibes (e pra não dizer que não tentei!!), vou tentar ser mais grata pelo que eu tenho, pelo que acontece de bom na minha vida e na vida das pessoas que eu amo. quero tentar recobrar um tantinho da fé nas pessoas, que eu perdi completamente. quero sentir coisas positivas - e me agarrar nisso - quando eu ver alguém fazendo algo de bom por outra pessoa ou pelo planeta... enfim. essas coisas que a gente costuma esquecer rápido porque tá muito ocupado prestando atenção nos absurdos que acontecem o tempo inteiro.


essa mudança de atitude não vai transformar o mundo, mas vai deixar minha vida mais fácil. e, consequentemente, se eu tiver menos negativa, também vai facilitar a vida de quem convive comigo. e é um primeiro passo, né? se eu tiver bem, posso contribuir mais, ajudar mais. já diria minha mãe: "se eu mudar, tudo ao meu redor mudará também". nem que seja só um tiquinho.

sábado, 22 de dezembro de 2018

stuck on a roller coaster

e 2018, hein, mores? que ano esquisito.

não foi exatamente ruim, mas teve muito momento baixo. por outro lado, não teve lá tantos altos assim, então não sei porque me fica essa impressão de que, no fundo, até que foi bom. acho que só pelo fato de não ter sido horrível eu já considero o saldo positivo. será que finalmente tô aprendendo a enxergar o copo meio cheio? ¯\_(ツ)_/¯

se eu tivesse que definir, diria que, mais do que tudo, esse foi um ano de encerramento de ciclos (uns mais felizes do que outros).

perdi minha avó. me formei na faculdade antes do tempo esperado e com notas muito boas. fiquei vários meses desempregada. trabalhei de casa por conta própria. arrumei meu primeiro emprego com carteira assinada. li vários livros bons. quase não chorei. tive menos crises de ansiedade, mas vivi por um bom tempo com o pensamento no futuro, sem conseguir efetivamente aproveitar o que o presente me oferecia. me senti inútil e despreparada em diversos momentos. não me arrependi de nenhuma das escolhas que fiz, mas questionei todas elas quando já não dava mais tempo de voltar atrás. me distanciei de pessoas que eu gosto, mas também me reaproximei de pessoas que tavam distantes e me fazem bem. escrevi com mais frequência. abandonei vários textos de ficção que eu comecei a escrever porque travei e não sabia mais o que fazer com eles (pode ser que uma hora eu termine, quem sabe...). consegui estabelecer uma rotina de exercícios físicos e minha autoestima cresceu. não cumpri a >única< meta de ano novo que eu tinha pra 2018. perdi toda e qualquer esperança em relação à sociedade brasileira, que se revelou ainda pior do que eu pensava. etc etc etc. 


eu tenho a impressão de que minha vida adulta tá começando só agora, que tô finalmente formada e dando início à minha carreira de verdade, como se todo esse tempo que veio antes tivesse sido só um teste, um período de adaptação pra eu me ajustar. tô com expectativas pros anos seguintes, não paro de fazer um zilhão de planos. mas daquele meu jeitinho: com os dois pés no chão, torcendo pra tudo dar certo, mas sem me decepcionar muito caso os sonhos não se tornem realidade.

pra 2019 eu só quero continuar fazendo tudo o que tá dando certo e parar de fazer o que não funciona tão bem assim. só isso. vamos viver sem grandes pretensões além de ser feliz. acho que tá bom, né? tomara que daqui um ano eu volte e diga que as coisas foram melhores do que eu poderia imaginar. :)

espero que, apesar de todos os altos e baixos que sempre se fazem presentes, o ano de vocês também tenha pendido pro lado positivo da balança. e desejo mesmo, de coração, que todo mundo seja cada vez mais feliz!

vem, 2019! (mas vem com carinho, não precisa chegar com os dois pés no peito não, tá? grata desde já.)


______

o post tá com cara de despedida, como se eu só fosse aparecer aqui de novo no ano que vem, mas juro que ainda volto daqui uma semaninha pra mostrar as leituras de dezembro! ;)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

beletrista

gente... EU ME FORMEI.

minha última aula foi em junho, porque teve greve na faculdade, mas em julho eu terminei de entregar todos os trabalhos finais e muito tempo depois, só em setembro, eu finalmente assinei minha colação de grau.

fiquei muito tempo pensando que eu deveria escrever sobre isso, porque foi um pedaço imenso da minha vida e porque eu não perdia tempo pra vir aqui falar mal do curso, dos colegas, dos professores etc. mas eu travei. comecei vários textos, mas larguei todos pela metade. eu não tava conseguindo me expressar, não sabia muito bem o que dizer.

mas basicamente é isso: depois de 09 semestres (um a menos do que o tempo padrão!) eu finalmente posso dizer em alto e bom som que sou graduada em letras pela usp, com habilitação dupla em português e inglês.

eu escolhi esse curso porque não sabia o que queria fazer da vida (agora eu acho que tô começando a descobrir). na escola, eu via meus amigos falando com certeza que queriam ser advogados, engenheiros, arquitetos, médicos... e eu só conseguia pensar "mas COMO você já sabe disso se a gente só tem 16 anos????". me senti pressionada a escolher, comecei a achar que o problema tava em mim, que talvez não levasse o meu futuro tão a sério ou sei lá.

fui pelo caminho mais óbvio: pensei nas matérias que eu gostava de estudar, vi em quais delas o meu desempenho era melhor e corri pro guia do estudante pra ver se me surgia uma luz no fim do túnel. no fim das contas, entrei na letras porque cismei que queria trabalhar com tradução. dei uma olhada na grade do curso e não entendi nem metade das matérias, mas achei que tava tudo bem. ia continuar estudando umas coisas que eu gostava e é isso, tava ótimo.

primeiro semestre e eu já tava querendo me esconder num buraco porque PELO AMOR DE DEUS NÃO É POSSÍVEL QUE É ISSO AQUI, socorro, alguém me ajuda etc. eram só quatro matérias: uma sobre ilíada e odisseia (eu nem sabia o que era isso), outra sobre linguística (eu também não tinha a menor ideia), a outra falava sobre a origem da língua portuguesa desde o protoindo-europeu (o quê?????) e sobre variação e preconceito linguístico, e a última era sobre poesia (que tinha tudo pra ser possível, estudar métrica, rima etc, mas o professor achou de bom tom colocar alunos recém saídos do ensino médio pra ler filósofo francês).

a carga de leitura do primeiro ano é tão grande que não tem aula de sexta feira, pro aluno dar conta de ler tudo o que os professores pedem.

eu não via a hora de começar logo a estudar gramática, mas esse dia nunca chegou. o primeiro banho de água fria com a letras veio quando eu descobri que esse tipo de coisa não fazia parte da grade curricular. aí você talvez esteja se perguntando: "mas se você não estudou gramática, você estudou o quê????". olha... muita coisa.

estudei livros clássicos gregos e latinos, muita literatura brasileira, muita literatura portuguesa, literatura americana, literatura inglesa, literatura africana de língua portuguesa e, de quebra, ainda li obras armênias, caribenhas e irlandesas. nesses quatro anos e meio eu li muitos romances, contos, poemas e peças de teatro nos dois idiomas. consequentemente, tive que ler muito texto teórico e de análise literária. e isso significa que também tive que estudar filosofia e história. cursei latim, cultura armênia, cultura italiana e pensamento da índia antiga. estudei sintaxe, morfologia, semântica, fonética e fonologia tanto em português quanto em inglês. também estudei teorias do texto e análise do discurso. cursei sociolinguística, psicolinguística e filologia. estudei teoria da tradução e tive muitas aulas práticas. fiz uma matéria de escrita criativa e, no final das contas, meu conto de ficção acabou sendo publicado na revista da faculdade (se quiser ler, tá aqui, na página 105).

por mais que eu tenha feito uma lista imensa, só dizer "os nomes" das matérias não faz jus a tudo o que eu aprendi nesse curso. estudar letras me enriqueceu muito como pessoa. tive contato com muita coisa que abriu meus olhos e me fez enxergar além do que eu conhecia. é óbvio que nem sempre eu gostava das aulas ou dos professores, mas o tanto de coisa incrível que eu estudei compensa as partes ruins.

não posso deixar de dizer que em determinado momento (talvez no segundo ano, agora já não lembro direito) eu questionei a minha escolha e pensei seriamente em sair e procurar outra coisa, mas eu tinha certeza que nenhum outro curso me faria mais feliz do que aquele. ainda que eu não soubesse o que fazer com ele depois de me formar, eu amava o que eu tava estudando. a bagagem que a letras me proporcionou é gigantesca e olha que eu não aproveitei nem metade do que a faculdade tinha pra me oferecer.

quando eu decidi que queria ser tradutora, eu não imaginava que mudaria de opinião tantas vezes a respeito da minha carreira. pensei que eu entraria na faculdade, leria uns livros, estudaria língua portuguesa e inglesa e terminaria focada em traduzir. eu não fazia ideia do tanto de coisa diferente e incrível que a letras ia me proporcionar. não foi por isso que eu escolhi fazer o curso, mas foi por isso que eu escolhi continuar até o final.

pode ser que eu tivesse mais sucesso financeiro se tivesse feito qualquer outra coisa. ou que eu tivesse mais prestígio, que as pessoas olhassem pra mim e pro meu diploma com mais respeito e admiração. mas nada disso supera o calorzinho no coração de ter concluído uma graduação riquíssima, que efetivamente me deixou realizada e orgulhosa de mim e do que eu escolhi.

apesar de toda a parte ruim, eu digo com tranquilidade que é uma delícia ser beletrista.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

ah, se ela soubesse...

Lila se olhava no espelho, apreensiva, pensando se deveria ou não trocar de roupa. Não tinha a menor intenção de demonstrar que passara duas horas se arrumando; queria parecer o mais natural possível. Depois de uma análise fria sobre a sua aparência, resolveu apenas trocar os brincos. Enfim, a moça ficou satisfeita com o resultado final. Sentia-se linda, leve e feliz.

Conferiu o celular pela última vez antes de sair de casa. A mensagem de Pedro estava lá, enviada apenas dez minutos antes, avisando que ele já estava indo ao local marcado: um barzinho novo, bem no centro da cidade. Lila sorriu, pegou sua bolsa e se dirigiu ao ponto de ônibus torcendo para que tudo desse certo.

Era uma noite quente de primavera. As ruas estavam barulhentas, do jeito que Lila mais gostava. Músicas altas saíam de dentro dos carros em movimento, pessoas conversavam e davam risada, cachorros latiam e corriam, aparentemente despreocupados. A brisa fresca que batia contra a sua pele era reconfortante. Lila consultava o relógio a cada dois minutos, com medo de se atrasar demais. Ela não queria estragar tudo por chegar muito tempo depois do horário combinado. Sentia que, pela primeira vez, as coisas estavam realmente se encaixando. Como se daquela vez tudo fosse dar certo.

O encontro com Pedro foi ainda melhor do que ela esperava. A conversa entre eles fluíra de forma natural, sem que nenhum dos dois precisasse se esforçar pra continuar o assunto. Na hora da despedida, Lila ganhou um beijo demorado na bochecha e um abraço que deixou sua roupa com o cheiro do perfume dele. Menos de cinco minutos depois do tchau, Pedro já estava mandando uma mensagem sugerindo o local do próximo encontro. Lila tinha certeza de que havia finalmente encontrado o amor da sua vida.

Ao chegar em casa, ainda sorrindo ao pensar em Pedro, a moça decidiu confirmar as coisas antes de se deixar iludir. Ligou para sua amiga Bruna, uma renomada vidente que efetivamente era capaz de ver o futuro e as suas possibilidades. Bruna sabia melhor do que ninguém o quanto Lila já havia sofrido por causa de seus relacionamentos passados. Foi assim que as duas se conheceram, inclusive. Depois de muito se decepcionar com os seus romances fracassados, Lila descobriu os serviços de Bruna e, desde então, passou a contar com a ajuda dela para decidir o que fazer. Antes de consultar sua bola de cristal, Bruna quis saber de tudo sobre o encontro dos dois. Quando a amiga terminou de contar, a vidente estava tão ansiosa quanto ela.

A respiração de Lila estava acelerada. Era impossível controlar o nervosismo; ela queria muito que Pedro fosse o homem certo. Assim que Bruna lhe garantiu que o destino dos dois não era o que ela queria ouvir, Lila sentiu suas pernas fraquejarem. “Desculpa, amiga. Pedro não é a pessoa com quem você vai passar o resto da sua vida”. Lila chorou e se perguntou se algum dia ela encontraria essa pessoa. Se Pedro não era o homem certo, então quem seria? Bruna tentou contar o resto das suas previsões, mas Lila não deixou. Precisava se desvencilhar de Pedro o mais rápido possível, antes que os dois se envolvessem demais. Limpando as lágrimas, a moça respondeu com palavras frias a mensagem carinhosa que havia recebido, colocando abruptamente um ponto final numa história que mal havia começado.

Como Lila não deixou sua amiga falar, ela não ouviu a parte boa das previsões. Lila só soube que não ficaria com Pedro para o resto da vida e, não querendo mais sofrer com términos, preferiu terminar esse romance antes que ele evoluísse. Mas ela não teve a oportunidade de saber que, caso eles ficassem juntos, teriam vivido uma história de amor incrível. Não seria eterna, é verdade, mas será que isso era realmente tão importante assim? Lila nunca soube que seu relacionamento com Pedro teria durado seis anos e que ela teria sido a pessoa mais feliz do mundo durante aquele período. No fim das contas, os dois precisariam se separar, mas nenhum dos momentos bons teria sido apagado. As recordações felizes continuariam dentro dela, fazendo com que ela sempre nutrisse sentimentos bons em relação a Pedro e ao que eles viveram juntos. Sem traumas, sem cicatrizes. Apenas uma saudade boa de uma época muito prazerosa, mas que infelizmente não tinha como continuar.

Talvez, se ela soubesse disso, Lila teria dado uma chance a eles. Mesmo querendo evitar ao máximo se machucar de novo por causa de um relacionamento mal sucedido. Se ela soubesse que o saldo positivo seria infinitamente maior do que o negativo, talvez ela não tivesse desistido antes mesmo de tentar. Se ela soubesse que não ficaria com Pedro pra sempre, mas que ele definitivamente era sim o amor da sua vida, ela com certeza teria tentado. Ah, se ela soubesse...

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

20. pra fechar o curso com chave de ouro

desde que eu entrei na faculdade eu vejo as pessoas falando nos grupos do facebook sobre os professores incríveis e maravilhosos e impressionantemente bons que existem por lá, aqueles professores que todos amam de paixão e que dão aulas extraordinárias etc etc etc. eu já tive aula com diversos desses docentes amadíssimos e, sinceramente, nunca me encantei muito com nenhum deles.

ou o professor era realmente muito bom dando aula mas era uma pessoa uó, ou era uma pessoa incrível mas a aula era bem meia boca, ou era uma pessoa legal e dava uma aula boa mas foi tão desorganizado com as avaliações que perdeu até o encanto e por aí vai. eu nunca tinha conseguido gostar de verdade mesmo de nenhum professor, em algum momento do semestre eu sempre ficava com aquele gostinho de decepção na boca.

até que no último semestre eu resolvi me matricular numa matéria que eu não tinha a menor vontade de cursar e que tinha tudo pra ser um erro absoluto. daí que eu fui agraciada com o único professor da graduação que me fez feliz do começo ao fim e que eu sentia vontade de abraçar de tanto amor.

como não amar um homem que usa MEIA DE RAPOSA?

eu tenho 0 interesse em estudar poesia, mas o último semestre é aquele momento em que você cursa o que tiver disponível pelo simples motivo de PELO AMOR DE DEUS DEIXA EU ME FORMAR!!! então corri o risco. primeiro dia de aula e só então foi que a turma (que era bem pequena, umas 20 pessoas no máximo) descobriu que o professor era nativo americano. foi um misto de yay! com deus me dibre e guarde. aí o moço contou que nasceu nos eua, mas a família é cubana então a primeira língua dele é espanhol e, por isso, ele tinha um nível mais ou menos ok de português. terminei a primeira aula animadíssima porque por mais que eu odiasse a ideia de passar um semestre estudando poesia em língua inglesa eu já tava decidida a amar este homem.

as aulas foram passando e eu só gostava dele cada vez mais, não tinha 01 defeito pra botar no professor. fofíssimo como pessoa, dava vontade de sentar pra tomar cafézin junto. a aula era boa, era divertida, ele realmente se interessava em ouvir os alunos e queria saber nossa opinião sobre várias coisas. o único problema é que essa matéria era dada às 8 da manhã às segundas feiras...... e, sendo assim, muita gente faltava. eu me sentia mal de faltar, porque aconteceu várias vezes de ter só umas dez pessoas na sala e ele obviamente já tinha decorado o nome de todo mundo, então eu me obrigava a ir hahaha mas eu nunca me arrependi :)

por conta da greve na faculdade, o método de avaliação foi um único trabalho de análise literária sobre o romantismo inglês. além de esse ser um tema insuportavelmente chato, eu sou HORRÍVEL analisando poesia. fiz um trabalho mental pra conseguir me convencer a continuar gostando do professor mesmo se eu tirasse uma nota média, porque a culpa de ir mal teria sido minha e não dele (tão fácil falar que o professor te deu nota ruim em vez de admitir que você fez um trabalho meia boca!), mas a cereja do bolo foi eu ter tirado 8!!!!!!!!! e ele ainda devolveu os trabalhos comentados ponto a ponto, justificando a nota e tudo mais. QUE HOMEM.

agora o bonitinho já voltou pros eua e quem não fez aula com ele infelizmente perdeu uma baita oportunidade. ele ficou pouco porque veio pro brasil pra estudar, se eu não me engano ele é especialista em romance latino-americano, daí aceitou o convite da faculdade pra assumir essa matéria. sentirei saudades reais do meu professor preferido da graduação todinha ♡ (e só dele mesmo, do resto eu quero mais é me distanciar!)

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fun fact: ele era VICIADO em guaraná zero (disse que o normal era muito doce) e passou uma aula inteira falando sobre isso sempre que surgia a oportunidade. e às vezes quando não surgia também, ele tava impossível, botava o refrigerante no meio do assunto a cada dez minutos. ^^

quinta-feira, 7 de junho de 2018

07 anos de pura resiliência

a nina é a melhor criança que eu já conheci. tá no top 10 pessoas que eu mais amo no mundo. e ela me ensina tanto, mas tanto, que nem parece que a professora sou eu. 

a gente sempre tem umas conversas maravilhosas. às vezes eu esqueço que ela é tão pequena, de tão inteligente e madura que a bichinha é - só pra vocês terem uma noção, ela tá no segundo ano do ensino fundamental, o equivalente à antiga primeira série, e já tá estudando comparativo e superlativo nas nossas aulas de inglês porque ela avançou mais de três anos em relação ao conteúdo da escola. 

mas ela ainda tem sete anos de idade, né? é uma nenê, praticamente. <3

e, além da escola regular (das 07h às 16h) e do curso de inglês, ela ainda faz aula de piano, informática, coreano (aos sábados) e ensino religioso (na igreja coreana, aos domingos de manhã!). antes tinha natação e taekwondo aí no meio também, mas a vida da ninoca tá meio sem esportes ultimamente.

daí que essa semana ela tava reclamando sobre ter que fazer muita lição e rolou o seguinte diálogo:

- eu odeio a escola coreana!
- sério que você não gosta?
- é muito chato! eu tenho que ir todo ano, todo mês, toda semana!!! 😠
- então por que você faz? seus pais te obrigam?
- não 😦
- mas eles sabem que você não gosta?
- sabem, a mamãe até me perguntou se eu queria parar no próximo semestre...
- e você falou o que?
- que não quero 😅
- e por que não???? você acabou de dizer que odeia!
- é, mas eu quero ir pra coreia algum dia e vou precisar falar coreano, né?
- bom, olhando por esse lado...
- é muito chato, mas a gente acostuma, né? 
- ah isso é verdade, a gente se acostuma com tudo nessa vida...
- eu não gosto, mas é importante fazer, então eu faço.

MANO. DO. CÉU.

eu só concordei e sorri, meio abobalhada, pensando na minha sorte em ter cruzado o caminho dessa criança. gente, sério. vocês não ficam chocados de saber que esse tiquinho de gente tem tamanha inteligência emocional?

essa menina virou minha inspiração pra vida inteira. sem contar que ela não se incomoda em errar, dá risada quando isso acontece e tem uma autoconfiança gigantesca. se algum dia eu for metade do que ela é, pra mim já tá bom.