sábado, 10 de julho de 2021

saí pra comer pastel e olha no que deu

eu não sei comprar por comprar.

além do fato de ser mão de vaca e não gastar dinheiro à toa, eu não vejo sentido em consumir sem necessidade. sabe a alegria que a gente sente depois de fazer uma compra? então, eu não sei. fico feliz por ter em mãos algo que eu queria, não pelo ato de comprar em si.

o que significa que eu uso as coisas até o limite do aceitável. camiseta de 15 anos atrás, mas que ainda serve e não tá rasgada? tenho e uso, pro horror da minha mãe. se ainda tá inteiro e servindo pro seu propósito, não vejo motivo pra substituir. só troquei de celular quando o meu inchou e precisei colocar DUREX pra segurar o bichinho no lugar. só comprei armação de óculos nova quando a minha quebrou pela segunda vez (da primeira, mandei arrumar). só me desfiz do chinelo quando já tava perigoso de andar com ele na rua de tão desgastada que tava a sola... e por aí vai.

daí que a última vez que eu comprei um tênis pra me exercitar foi em 2013. fui pro intercâmbio e não levei o que eu tinha, mas chegando lá me matriculei na academia (pois é) e precisei caçar um tênis adequado. imagina o mico eu chegando pra correr na esteira usando vans, pelo amor de diós. fui na loja e simplesmente escolhi o mais barato, nem olhei os outros. pra minha sorte, era bonitinho! obviamente não era muito confortável, mas dava conta do recado.

sigo com esse tênis bonitinho, mas ordinário no armário até hoje, porém na casa de mamãe. quando me mudei, não peguei o que não ia precisar usar tão cedo, o que significa que os sapatos de salto e o tênis de fazer exercício ficaram pra trás. ah, isso porque desisti dessa história de academia. sou do time ioga, pilates e ballet fitness, então meu exercício em casa eu faço descalça :)

dito isso, vamos ao causo do dia. 

tempos atrás, meu namorado descobriu uma feira de rua que vende um pastel bom pra caramba. ele trouxe um pra mim, comi, fiquei impactada: bem melhor do que o pastel da feira aqui do bairro, que já é bem gostoso. o primeiro problema é que essa feira que ele descobriu é de sexta. o segundo problema é que fica longe daqui e, pra piorar nossa situ, a gente não tem carro. isso significa que não dá pra ir antes de começar a trabalhar (quem compra pastel 9 da manhã, gente?) e muito menos na hora do almoço. então, depois de experimentar o pastel novo, restou apenas a vontade de comer de novo e a expectativa de poder ir até lá quando a vida permitisse.

até que são paulo nos agraciou com o feriado de 9 de julho, em plena sexta feira, e a gente decidiu que o passeio do dia seria ir comprar o tal pastel! a vida da pessoa que segue em isolamento social, meus amigos... ir a pé em feira de rua vira diversão.

eu sabia onde era a feira, mas como não conheço direito a região aqui e não tenho a menor noção espacial, não consegui perceber exatamente a distância entre minha casinha e o pastel. o boy falou "ah, é meio longe, tipo meia hora daqui...". beleza. 30 minutos andando, não tá nem fazendo muito calor, bora! vesti uma roupa confortável, prendi o cabelo, coloquei uma máscara n95 que não incomoda no ossinho do nariz e partiu. 

mas, como eu disse, não tenho um tênis adequado pra isso, né. o que significa que... 🥁... eu fui de all star.

pois é, mores. era o que tinha. quando eu vim pra cá, trouxe três tênis: um all star branco bonitinho e relativamente novo, um keds preto que eu só uso com aquelas meias que não aparecem e um vans de 2012 já tão destroçado que, recentemente, eu cedi pro meu namorado usar de apoio pra cadeira. imagina a situ do tênis. por incrível que pareça, o all star era a opção mais confortável.

enfim. saímos de casa 11h da manhã. solzinho quente gostosinho contrastando com o vento gelado, meu clima preferido. fomos andando num ritmo normal, nem correndo nem devagar demais (não tenho paciência), conversando, descobrindo lugares novos pelo caminho etc e tal. 

vou falar pra vocês que, pela primeira vez em vários dias, eu me senti viva. não só sobrevivendo e seguindo em frente por não ter outra opção. fiquei de coração quentinho e feliz de verdade por estar de mãos dadas com o menino que eu gosto, andando por ruas desconhecidas, indo atrás de um pastel de carne seca com queijo. coisa boa a vitamina d agindo no corpo, né, menina?

depois dos "30 minutinhos andando", a gente ainda não tava nem perto de chegar na feira. sem contar que erramos o caminho, entramos na rua errada e tivemos que dar umas voltas a mais, o que fez o percurso aumentar. mas ninguém tava com pressa, era feriado, só alegria. aliás, eu parecia criança deslumbrada chegando num parque temático pela primeira vez, tamanha a empolgação. (dá pra perceber que ainda estamos levando a sério a recomendação de ficar em casa pra evitar o contágio?)

pois finalmente chegamos na bendita feira depois de uma hora andando. e sem cansaço nem falta de ar, mesmo de máscara durante todo o trajeto. ah, sem incômodo nenhum nos pezinhos também!! nem parecia que eu tava usando o pior tênis possível pra essa empreitada. é inacreditável tanta coisa boa ao mesmo tempo, eu até desconfio. 

daí comemos o pastel com caldo de cana (porque a gente não é besta) e, bom, hora de voltar pra casa. mas com o estômago cheio bateu um soninho... e o calcanhar finalmente começou a reclamar... e o sol tava um pouquinho mais quente, então o rosto tava meio sufocado na máscara... mas vamo que vamo que ainda tem 1h de caminhada pela frente!

em determinado momento, com dor em todos os cantos dos pés, cheguei a pensar se não valia a pena terminar o trajeto descalça. "é óbvio que não, para de ser maluca, você não é nem doida!" foi minha resposta depois de dois segundos pensando no assunto. mas que deu vontade, deu. e o mais esquisito é que em momento algum eu cogitei pedir um uber, achei mais plausível andar descalça EM SÃO PAULO do que entrar no carro alheio na pandemia kkkkkk #momentos 

às 13h40, chegamos em casa exaustos, morrendo de sede, mas muito felizes! e já com fome de novo depois dos 4,5 km percorridos pra voltar... :)

mas enquanto a gente andava, conversando sobre nossas férias que estão por vir, começamos a pensar pra quais lugares poderíamos ir a pé, seguindo esse mesmo esquema. a gente começou a sonhar meio alto, escolhendo uns destinos ainda mais longe. e foi ali que eu concluí que tava na hora de comprar um tênis decente pra isso. o que tá na casa da minha mãe provavelmente também me machucaria depois de uma hora andando, não tinha mais como evitar.

no dia seguinte (hoje, no caso), por causa do exercício, acordei com dor na panturrilha e na bunda. e, por causa do tênis, no calcanhar e na ponta dos dedos. precisei ir ao mercado e... 🥁... usei o all star de novo. como eu disse, única opção. foi a gota d'água.

daí que eu respirei fundo, liguei o computador e comprei DOIS tênis novos. depois dessa ousadia, o próximo agora só em 2030!

sábado, 22 de maio de 2021

perdi o timing

por mais que eu não tenha mais a disciplina, a força de vontade e o tempo necessários pra continuar atualizando esse cantinho com a frequência que eu gostaria, continuo tentando.

pode até ser um esforço pequeno, não nego, mas não larguei mão não. escrevo no meu caderninho todas as minhas ideias pra post, até começo alguns, inclusive fico pensando durante o dia no que vou escrever, aí chega na hora e: não sai nada. 

abro a página em branco decidida a postar, olho pro teclado e fico travada. já fiz muita autoanálise sobre isso, se eu fizesse terapia com certeza seria tema de sessão... como que pode eu simplesmente não conseguir fazer algo que eu QUERO fazer? qualquer mini motivo já é justificativa suficiente pra eu abandonar o rascunho pra lá e fingir que ele nunca nem existiu, mas sigo com vontade de superar esse bloqueio. até porque, ainda que eu não coloque nada no papel, continuo escrevendo dentro da minha cabeça.

principalmente quando tô tomando banho, que é sempre o meu momento preferido do dia. água bem quente (minha pele que lute), de preferência com a luz baixa e sabonete cheiroso. escrevo post, crônica, conto, carta de amor. dependendo do grau de inspiração, sai até romance calhamaço. mas não tiro nem uma mísera ideia de dentro da minha mente, fica tudo aqui, inacabado, misturado, juntando pó e teia de aranha dentro dessa cabecinha confusa e cansada.

às vezes até me arrisco a começar, escrevo um parágrafo, penso até no título! e paro de novo.

por exemplo: minha mãe faz aniversário em janeiro. esse ano a comemoração foi diferente de todas as anteriores. papai e mamãe vieram almoçar aqui em casa (privilégio demais a aniversariante ir até você, né? eu sei ♡), o cardápio foi pastel da feira da rua de cima. decoramos a parede branca da sala com fotos, pisca-pisca e bilhetinho escrito com marca-texto em folha de caderno, porque era o que tinha. foi um dia importante e eu quis muito registrar isso aqui, só que não consegui. comecei o post, mas depois de três meses sem sair do lugar eu até excluí o rascunho. já tinha passado tempo demais.

também teve a vez em que o boy e eu nos demos um fim de semana especial, inspirado no treat yo self day de parks and recreation. deixei de lado meu maior traço de personalidade (que é ser mão de vaca) e me permiti comprar coisas gostosas - e caras! - no mercado. foi uma sensação incrível e a gente se divertiu até na parte chata, higienizando e guardando as compras. me senti muito feliz, de um jeito que não me sentia há dias. quis registrar, o post tava pronto na minha cabeça, daqueles grandões em que eu dou voltas e voltas antes de efetivamente falar o que quero, mas nunca consegui criar coragem pra escrever. os dias foram passando, a euforia do momento morreu e parece que falar sobre isso perdeu o sentido. mais uma vez, perdi o timing.

isso sem falar no desafio de escrita que eu me propus a fazer, ainda que com menos rigidez do que o desafio realmente pede. comecei há mais de um ano e dá até vergonha de falar que ainda não passei do número quatro. os 30 dias de escrita evoluíram pra mais de 365... não nem sei o que falar da falta de timing desse aqui, sinceramente. e eu juro que comecei empolgada, achei mesmo que fosse dar continuidade. 

tem tanta história que eu queria contar... mesmo que ninguém leia, mesmo que depois eu pense que poderia ter escrito melhor etc. etc. etc. 

parece que ultimamente eu só consigo fazer as coisas por obrigação. tenho que trabalhar, tenho que fazer exercício, tenho que cozinhar e por aí vai. mas não tenho que escrever na internet. faço isso porque gosto, não porque preciso fazer. aí vou passando pra trás na listinha de tarefas e, quando vejo, ficou tão distante que já perdeu o propósito.

mas como sou muito disciplinada e responsável, no fim do mês eu volto aqui pra contar sobre os livros de maio. ai, ai... 🤡

sábado, 21 de novembro de 2020

a boa filha a casa torna

 4. escreva sobre sua família.


desde que eu passei a morar com o boy, no comecinho de agosto, eu só fui pra casa dos meus pais uma vez, no dia dos pais.

eles vieram aqui visitar a gente umas três vezes nesse meio tempo, mas o inverso é mais complicado. não temos carro e não faz muito sentido pra mim pegar metrô e trem no meio de uma pandemia sendo que eles vêm até aqui de bom grado, sabe? ainda mais considerando que a linha rubi, também conhecida como a pior linha de trem da cidade de sp, é tão insalubre que, possivelmente, foi lá onde o coronavírus nasceu...

até que chegou o dia da eleição e eu não pude mais fugir, precisei encarar mais essa aventura correndo riscos sanitários. nós ainda votamos lá por aqueles lados, bem pertinho de onde nossos pais moram, então foi a oportunidade perfeita pra apertar o número 50 na urna e visitar a família.

fomos pra lá no sábado no fim da tarde e já fizemos o serviço completo: jantamos com os pais do namorado, depois fomos dormir nos meus pais.

chegamos tarde lá em casa, já era umas 23h. pensei que meu pai estivesse dormindo (ele é desses que acorda 5 da manhã sem necessidade alguma e às 20h já tá cochilando enquanto finge que tá vendo o jornal), mas o bichinho tava lá, firme e forte, acordadaço esperando a gente chegar. inclusive usando roupa normal, e não pijama, porque era uma ocasião especial e ele tinha que estar vestido de forma decente. vê se eu aguento isso? kkkk

minha mãe é muito carinhosa, não perde a oportunidade de dizer que ama e de encostar na gente. ela gosta de abraço, de beijo, de deitar junto pra ver tv ou conversar. então com ela é tudo mais fácil: diz sem problema algum que tá com saudade, chora quando revê e me recebe de pijama, porque não faz sentido ficar de outra forma no sofá de casa me esperando tão tarde da noite. já o meu pai não é desses que demonstra afeto de um jeito tão claro. ele faz o que for por você, não mede esforços jamais, mas não é do time que encosta muito ou que diz abertamente o que sente. 

porém todas as vezes que a gente se encontrou desde agosto, ele me abraçou forte de um jeito que nunca tinha feito antes. papai só dava abraços em dias importantes: aniversário, natal, formatura... não num dia qualquer. agora, todo reencontro é especial. tão especial que ele, que tinha mesmo acordado 5h da manhã, dormiu de tarde só pra conseguir ficar acordado até mais tarde com a gente.

aliás, ficamos todos conversando até depois das 2 da manhã. a saudade faz coisas impressionantes.

no dia seguinte, meus pais (que foram votar de manhãzinha, numa escola que fica literalmente do outro lado da rua!) nos agraciaram com uma mesa de café da manhã de hotel. isso porque tomar café junto, principalmente de domingo de manhã, era uma das nossas tradições familiares. sentávamos à mesa do café umas 9 e pouco e ficávamos, de preferência, até perto do meio dia, comendo bem devagar. quer dizer... quem chegava essa hora era eu e minha mãe, né. meu pai já tinha tomado café há tempos, mas continuava ali com a gente, fazendo companhia e beliscando uma coisa ou outra (até porque, se você come um pão com manteiga às 6h, às 10h já tá na hora de comer de novo). a gente comentava o que tivesse passando na tv e falava sobre bobagem e assunto sério, tudo ao mesmo tempo. nos nossos cafés de domingo tinha desde discussão filosófica e política até história engraçada de fazer chorar de rir. a família é eclética, se a gente tá junto não tem tempo ruim.

semana que vem, no segundo turno da votação, o reencontro vai ter um charme a mais: meu irmão também estará presente. ele mora em outro estado, a última vez que a gente se encontrou esse ano foi em janeiro. meus pais tinham marcado de ir na casa dele em março, mas a pandemia aconteceu e os planos foram todos por água abaixo. agora, quase um ano inteiro depois, nós quatro estaremos novamente sentados juntos ao redor da mesa.

imagina se meus pais já não tão contando os segundos igual criança em véspera de excursão na escola... ♡


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pra ler os posts anteriores do desafio dos 30 dias, clica aqui!

(kkkkkkk não sei nem se eu posso continuar chamando de desafio, sendo que tô cumprindo assim, sem nem 01 pingo de vergonha na cara... mas é o que temos pra hoje ¯\_(ツ)_/¯)

sábado, 22 de agosto de 2020

home, sweet, home

no começo de agosto, saí da casa dos meus pais e passei a morar com o boy.

a gente namora há quase sete anos, já faz um tempão que falamos de morar juntos, mas nunca era a hora certa. "nossos salários não são bons o suficiente, podemos esperar mais um pouco, o imóvel precisa obrigatoriamente ficar num lugar assim ou assado", etc etc etc. porém agora, no meio de uma pandemia, depois de vários meses sem nos encontrarmos, decidimos encarar de frente essa próxima etapa. finalmente juntamos as escovas de dente.

viemos parar do outro lado da cidade, num bairro gostosinho e perto de tudo, numa rua sem saída e super tranquila! o apto não é grande e tá meio mal cuidado, mas era o que cabia no bolso. e vai ficar bonitinho (aliás, já tá ficando!), a gente só precisa se esforçar um pouco pra isso hehe

por aqui, as coisas estão tomando forma aos poucos. compra um eletrodoméstico aqui, um móvel ali, um negocinho acolá... agora até que já temos bastante coisa, mas chegamos só com fogão e geladeira na cozinha (gente, que caro geladeira, né? eu hein), nossas escrivaninhas pra gente conseguir trabalhar, duas cadeiras usadas dessas universitárias que meu pai arrumou e uns móveis que eu trouxe do meu quarto.

aliás, o boy e meu pai que desmontaram meu guarda-roupa pra transportar até aqui. pra montar, os dois contaram com a ajuda do meu cunhado. eu desacreditei do sucesso dessa empreitada, mas deu tão certo que até me surpreendi. não ficou 100%, até porque o bichinho já não era da melhor qualidade, mas ficou o melhor possível :)

passamos os primeiros cinco dias dormindo num colchão de solteiro no chão, esperando o novo chegar. o plano era dormir num inflável de casal, mas não rolou - tava sem a tampa que fecha o buraco por onde enche de ar. por sorte trouxemos esse aí de plano b, que na verdade era pra servir como sofá. e por mais sorte ainda tava um frio lascado nesses dias, porque seria inviável dormir tão juntinhos se tivesse calor. depois que o colchão de casal chegou a qualidade do sono melhorou de forma incalculável, mas ainda faltava a cama - que só chegou uma semana depois do colchão. se quiséssemos receber os dois juntos, só 14 dias depois da nossa chegada na casinha nova. melhor dormir no colchão de casal, mesmo no chão, do que passar duas semanas dividindo o colchãozinho que a gente trouxe.

demoramos um pouco pra ter o armário da cozinha (vou contar essa saga em outro post), então usamos umas caixas pra fazer uma despensa improvisada. cozinhar tava sendo um desafio. além de não termos espaço pra apoiar as coisas, também passamos alguns dias sem panelas, sobrevivendo com duas frigideiras e a panela de pressão. enquanto isso, como a sala tava vazia (só compramos sofá, mesa e cadeiras no fim de semana passado), ela foi eleita o cômodo oficial da bagunça. tudo o que ainda não tinha lugar definido ficava jogado por lá. tava um caos, meio desesperador mesmo, mas ainda assim dava um quentinho no coração de saber que aquela bagunça toda ficava na nossa casinha.

tá sendo incrível essa experiência de viver sob o mesmo teto que a minha pessoa preferida no mundo.

claro que sinto saudade de quando eu acordava e meu pai já tinha feito o café (e eu gastava bem menos dinheiro), mas dormir e acordar todo dia ao lado desse cara tá fazendo valer a pena demais os perrengues chiques que a gente passa todo dia!

em tempos normais, estaríamos aproveitando tudo o que o bairro novo tem pra oferecer - inclusive pegar metrô e descer na avenida paulista depois de três estações. por enquanto, o que a gente conhece se resume a: mercado, padaria, farmácia e a feira da rua de cima. como não dá pra passear, o que a gente tem feito é experimentar os restaurantes da região que fazem delivery. já tá sendo um bom começo ♡

domingo, 3 de maio de 2020

açaí e sorvete de frutas vermelhas

dia desses minha amiga bia postou no twitter sobre um desafio de escrita (tá nos destaques!) que ela ia encarar. quem tá por aqui há tempos talvez se lembre que lá nos longínquos anos de 2015 e 2016 eu participei do BEDA (blog everyday in august), postando todos os dias do mês de agosto durante dois anos seguidos. em 2015 foi divertido, mas em 2016 foi tão sofrido que eu prometi nunca mais cair nessa cilada outra vez. e aqui estamos nós... querendo beber da água que eu disse que nunca mais beberia. vou jogar mais essa pra conta da quarentena! 

mas dessa vez a coisa vai ser diferente, porque em 2020 quem manda no desafio sou eu. tô rebelde, não quero saber de seguir regras. vou fazer do meu jeitinho, TENTANDO seguir pelo menos a ordem dos temas propostos sem pular nenhum, mas vou postar na frequência que eu bem entender. e não necessariamente vou escrever sobre a minha vida, quero usar o tema como fonte de inspiração só. pode ser que venha um relato autobiográfico, mas pode ser que venha um conto de ficção, vai saber! ah, também vou desistir sem medo de ser feliz quando eu não tiver mais afim, porque não sou obrigada a nada. dito isso, vamos lá! :)

✽✽✽

1. escreva sobre o seu primeiro amor.

já fazia 6 anos que aline e rafael moravam no mesmo condomínio, o village das andorinhas, a poucas casas de distância um do outro.

com muito esforço, os pais de rafinha conseguiram comprar o sobrado de número 52 antes mesmo de ele nascer. quando rafael tinha nove anos, aline mudou-se para o village. ele a viu pela primeira vez numa quarta-feira à tarde. em frente ao sobrado 48, havia um casal de adultos e uma menina baixinha, usando vestido roxo e tênis laranja. ele ficou curioso - será que aquela família se mudaria para lá? suzy, a mãe de rafael, acenou para os novos vizinhos. ele também sorriu e acenou, mas a menina era tímida: escondeu-se atrás da mãe e ficou espiando enquanto ele entrava em casa.

a princípio, aline tentou passar despercebida. a menina estava apavorada com a ideia de conhecer tantas pessoas novas! mas em poucas semanas esse cenário mudou: ela conquistou tranquilamente o seu espaço em meio às outras crianças do condomínio. assim como todo mundo, rafael ficou muito feliz por tê-la ali. lica era a melhor jogadora de queimada do village todinho!

durante anos os dois encontraram-se quase todas as tardes. junto com os outros amigos, formavam um grupo de dez crianças que estavam sempre juntas. rafinha ensinou aline a andar de bicicleta - e correu desesperado pra acudir quando ela caiu e ralou o joelho. mas lica não se deixou abalar! limpou as lágrimas e tentou de novo e de novo, até conseguir. as amigas bateram palmas e gritaram de alegria quando ela finalmente pedalou sozinha, sem as rodinhas da bike, e sem perder o equilíbrio nenhuma vez. aline largou a bicicleta no chão e correu pra abraçar rafael, como forma de agradecimento. tantos anos depois, ambos ainda tinham esse momento guardado na memória com muito carinho.

com o passar do tempo, o grupo de amigos mudou. algumas crianças foram embora do village, outras chegaram... mas lica e rafinha continuaram lá, juntos, mais amigos do que nunca. na sétima série, rafael ficou de recuperação em geografia. aline passou uma semana ajudando-o a estudar todos os dias, o que garantiu a ele uma nota 8.5! como recompensa, lica ganhou um pote enorme de açaí com leite condensado, morango e granola. ela ficou tão feliz que só se lembrou de oferecer quando faltavam pouquíssimas colheradas pra acabar. rafinha até queria sim, mas preferiu deixar tudo pra ela. dava gosto de ver a menina sorrindo daquela forma, ele não quis correr o risco de estragar o momento.

agora faltavam poucos meses pro aniversário de 15 anos de aline. ela não quis ganhar uma festa, preferiu viajar. na semana do seu aniversário, lica e seus pais iriam para um hotel no rio de janeiro. ainda que essa não fosse a sua viagem dos sonhos, a menina estava muito feliz. aline passava horas planejando a viagem e pesquisando passeios diferentes, ela estava muito empolgada! a avó paterna de rafael era do rio de janeiro, o menino já havia passado as férias muitas vezes nas praias cariocas. por isso, rafinha fez questão de dar a ela todas as dicas possíveis. no seu roteiro da viagem, registrado num caderno antigo, aline escreveu de caneta vermelha, no alto da página: "não deixar de conhecer a sorveteria preferida do rafa!!!".

um dia antes de viajar, a menina estava tão ansiosa que não conseguia se distrair. ela pegou o celular e mandou uma mensagem de texto pra rafael, perguntando se podia ir na casa dele jogar video game. rafinha demorou sete minutos pra responder. ela já estava impaciente, mas sorriu ao ver a resposta: "corre, estamos te esperando", acompanhada de uma foto do controle do video game e um balde de pipoca. sem perder tempo, aline calçou o primeiro chinelo que encontrou pelo caminho e deixou um bilhete escrito às pressas na mesa da sala: "tô no rafa, volto mais tarde. se precisar, me liguem!". quando chegou na casa 52, rafinha já estava esperando na porta.

foi uma tarde muito divertida! enquanto jogavam, os dois conversaram sobre vários assuntos, não apenas sobre a viagem. como sempre, com seu jeito mais tranquilo, rafael conseguiu fazer aline se distrair e relaxar. aliás, sempre que ela se sentia muito nervosa, era ele quem a ajudava a se acalmar. de noite, ao abraçá-lo na hora da despedida, lica lembrou-se do abraço que eles haviam trocado há tantos anos, quando ela aprendera a pedalar. naquele momento, seu sentimento de gratidão era o mesmo. antes de dormir, rafinha mandou uma mensagem desejando boa viagem. "não esquece, o sorvete de frutas vermelhas é o mais gostoso", ele escreveu. aline com certeza se lembraria disso.

aline voltou pra casa num sábado à tarde. quando chegou no condomínio, três amigas já estavam à sua espera. as meninas ajudaram-na a descarregar as bagagens do carro e foram convidadas por patrícia, a mãe de aline, a entrar em casa. juntas, enquanto conversavam sobre todas as novidades dessa última semana, as quatro adolescentes desfizeram a mala de aline, separaram as roupas para lavar e guardaram tudo o que precisava ser guardado. quando aline foi tomar banho, bianca correu até a sala para conversar com a mãe da amiga. enquanto isso, carol mandou mensagem pra rafael e tati foi até o salão de festas do condomínio. assim que o chuveiro foi fechado, bianca voltou para o quarto de aline e ficou conversando com carol como se nada tivesse acontecido. quando lica percebeu que tati não estava mais ali, estranhou. as meninas inventaram uma desculpa qualquer e convenceram aline a acompanhá-las até o parquinho do condomínio. ela não queria ir, sentia-se cansada da viagem e preferia ficar em casa. mas até mesmo os seus pais insistiram para que ela fosse se divertir e matar a saudade dos outros amigos, então ela aceitou o convite.

bianca e carol estavam agindo de maneira esquisita, mas como aline não conseguiu encontrar nenhum motivo pra isso, preferiu deixar pra lá. assim que passaram em frente ao parquinho, aline perguntou se elas não iam parar. carol respondeu prontamente que iam até a casa de tati, perto do salão de festas, para ver se a amiga podia sair novamente. quando elas estavam a pouquíssimos passos da porta do salão, as luzes se acenderam e, em uníssono, diversas pessoas gritaram "PARABÉNS, LICA!". aline levou um susto tão grande que quase tropeçou. com um misto de vergonha, alegria e irritação por ter sido enganada, ela começou a chorar. as amigas correram para abraçá-la - inclusive tati, que foi quem acendeu a luz do salão de festas.

os pais de lica, que sabiam da surpresa desde antes mesmo da viagem acontecer, também apareceram. visivelmente emocionados, eles abraçaram os amigos da filha, agradeceram a demonstração de carinho, disseram para aline aproveitar a festa sem hora pra voltar pra casa e foram embora. quando conseguiu conter as lágrimas e conversar com os amigos, lica descobriu que a ideia toda havia sido de rafael. ele e bianca combinaram os detalhes com os pais de aline e organizaram, junto com os outros amigos do grupo, essa festinha surpresa. "eu sei que você não queria uma festa normal, mas não dava pra gente deixar essa oportunidade passar", ele disse. aline sentiu seu coração bater mais forte. rafael puxou-a para um abraço e, dessa vez, foi diferente de tudo o que ela já havia sentido antes. até o perfume que ele sempre usava parecia mais cheiroso. lica sentiu as bochechas arderem.

já passava das dez horas da noite quando o grupo começou a arrumar o salão para ir embora. aos poucos, os amigos foram se despedindo e voltando para suas casas. quando tati percebeu que restavam apenas cinco pessoas ali, disse para bianca e carol que elas precisavam deixar lica e rafael sozinhos. "é hoje, gente, eu tenho certeza! rafinha precisa tomar uma atitude de uma vez por todas!". ao passar por rafael, carol lançou-lhe um olhar que dizia claramente pra ele não perder aquela oportunidade. assim que ficaram sozinhos, rafael respirou fundo. "lica", ele chamou. aline olhou pra ele com uma ansiedade quase palpável. seu estômago estava retorcido, como se houvesse uma família de borboletas morando ali dentro.

"vamos conversar lá fora?", rafael perguntou. eles apagaram as luzes, trancaram a porta do salão e  foram para o parquinho. sentaram-se lado a lado, um em cada balança. por regra do condomínio, maiores de 12 anos não poderiam ficar ali, mas eles sabiam que ninguém fiscalizava depois das 22h00. lica  pensava nisso enquanto olhava para os próprios pés, tentando controlar o nervosismo, quando percebeu que rafael a encarava. com muito esforço, ela o encarou de volta. por mais que sempre tivesse se sentido completamente à vontade ao lado dele, aquela era uma situação completamente nova. aline sequer entendia tudo o que estava sentindo. assim que percebeu que ele iria falar alguma coisa, por impulso, ela falou antes: "o sorvete de frutas vermelhas foi o melhor que eu já comi". rafinha começou a rir.

- eu tô há dez minutos criando coragem pra falar uma coisa séria e, quando eu finalmente consigo, você me diz uma coisa dessa. aline do céu!

- o que foi? - ela perguntou, querendo rir, porém um tanto constrangida. suas bochechas estavam queimando novamente. por sorte, a luz da lua não era forte o suficiente para iluminá-la naquele momento. - desculpa... o que você ia falar?

- você jura que não sabe? - rafael queria rir, mas dessa vez era de nervoso. ele estava olhando fixamente dentro dos olhos dela. eram os olhos mais lindos que ele já tinha visto, apesar do seu tom de castanho completamente comum.

sem dizer nada, aline caminhou até um banco de madeira e chamou-o para sentar-se ali junto com ela. o coração de rafinha batia tão forte que ele tinha certeza que aline podia escutá-lo. sentados de frente um para o outro, em silêncio, eles encararam-se por alguns segundos. lica estava muito ansiosa, ela ainda não se sentia pronta para ouvir o que quer que rafael tivesse a dizer. mas ela sentia que queria a mesma coisa que ele. sendo assim, a menina inclinou-se alguns centímetros para frente, chegando mais perto de rafael. "desde quando?", ela perguntou. rafinha abriu um sorriso, o que fez o coração de aline saltar até a boca. "acho que desde sempre... mas no dia que você comeu todo o açaí depois de eu passar na prova de geografia foi que eu tive certeza", ele respondeu. aline gargalhou, essa resposta foi muito melhor do que ela estava esperando! sem pensar muito, ela fechou os olhos e projetou o corpo para frente, encostando os seus lábios nos dele.

esse não foi o primeiro beijo de nenhum dos dois, mas com certeza foi o mais especial até o momento. aline percebeu que rafinha sempre havia sido mais do que um amigo. por mais que não tivesse identificado isso antes, ela realmente também gostava dele de um jeito diferente. eles ficaram juntos ali no parquinho por mais uns quarenta minutos, conversando, dando risada e trocando beijos e abraços. rafael não queria se separar, mas aline estava caindo de sono. ela precisava mesmo descansar depois de um dia tão intenso. caminharam de mãos dadas até a casa 48, onde lica morava, e despediram-se com um selinho tímido. antes de dormir, ainda trocaram algumas mensagens de texto. rafael adormeceu com um sorriso de orelha a orelha pensando na última mensagem que ela enviara. "amo açaí e sorvete de frutas vermelhas, mas prefiro você. boa noite, a gente se vê amanhã! ❤️".

sábado, 28 de março de 2020

você assistiu errado, tenta de novo!

em 2017, a pixar lançou o filme viva - a vida é uma festa, que gira em torno de uma família mexicana e da celebração do día de los muertos.


miguel, o menininho com o violão, briga com a família por querer seguir seu sonho de ser músico e acaba indo parar no mundo dos mortos. como consequência, depois de sair quase tudo errado, miguelito faz com que sua família seja ainda mais unida do que antes.

esse filme é INCRÍVEL!! a história é linda, é muito divertido, tem músicas ótimas, as personagens são maravilhosas (frida kahlo tá no filme!) e é tudo tão colorido!!!!

poucas coisas na vida me fazem tão feliz quanto essa cena aqui:


é de encher os olhos mesmo, muito bonito de assistir! e é emocionante pra caramba, o filme tem umas cenas de deixar a gente com lágrima nos olhos. pra coroar essa belezinha, a mensagem no final é super positiva! mas aparentemente nem todo mundo concorda com essa minha afirmação...

se você não assistiu ainda e não quiser ler spoilers, eu sugiro que você pare por aqui. e sugiro com ainda mais insistência que você assista a esse filme pra ontem porque ele é, de longe, um dos meus preferidos da vida inteira ♡

segundo a crença mexicana, o día de los muertos é quando as almas voltam "pro mundo dos vivos" pra visitar seus entes queridos. as famílias montam um altar com as fotos dos falecidos, flores, comidas e outros objetos que representem quem já morreu. (se eu tiver falando bobagem, please, me corrijam!) não sei até que ponto o filme é fiel à cultura mexicana e à essa celebração, então pra evitar falar alguma coisa errada vou me basear unicamente na história que a pixar tá contando.

no filme, pra um morto conseguir atravessar a ponte pro mundo dos vivos e visitar a família, a foto dele precisa estar nesse altar. sem a foto, a passagem dele é barrada. além disso, pra que esse morto não desapareça pra sempre, ele não pode ser esquecido no mundo dos vivos. ou seja, a lembrança dele do lado de cá é o que faz ele continuar existindo do lado de lá. pois muito que bem.

já no mundo dos mortos, depois de mil encontros, desencontros e reviravoltas, miguel conhece seu tataravô e descobre que, se não voltar urgente pro mundo dos vivos, o tataravô vai sumir. isso porque a única pessoa da família que ainda tinha lembranças dele era filha, que é a bisavó do miguel, e ela já tava bem velhinha e perdendo a memória.

contando com a ajuda de todos os familiares no mundo dos mortos, miguelito consegue retornar e é aí que a gente tem a cena mais emocionante do filme. com um violão, contrariando todas as regras da família no mundo dos vivos, ele canta pra bisavó a música que o tataravô compôs pra ela. assim, ele reacende a memória da véinha, que volta a lembrar do pai dela com mais força. e a bisavó chora. e o miguel chora. e os outros familiares (que não queriam que ele tivesse cantado) choram. e você que tá assistindo chora MUITO.


a princípio, parece uma cena meio angustiante, porque se todo mundo tá chorando então a coisa é triste. mas a consequência disso é que o tataravô não foi esquecido e, portanto, não desapareceu. ou seja: FICOU TUDO BEM. daí o tempo passa, a bisavó também falece e a gente vê pai e filha juntos, se abraçando e sorrindo, no mundo dos mortos. miguel colocou a foto do tataravô no altar, então dessa vez todos os familiares falecidos conseguem atravessar a ponte pra comemorar essa data ao lado da família. eles dançam, cantam, brincam, dão risada... o filme termina feliz!

na minha perspectiva, um dos pontos do filme é mostrar que essa é uma data positiva, que é uma forma muito bonita de celebrar a vida de quem já partiu e de manter viva a lembrança daqueles que já não estão mais aqui. mas teve muita gente falando que era uma das histórias mais tristes que a pixar já tinha feito, que não tinha condição de rever etc etc etc.

você aí que ficou tão impactado com a cena emocionante a ponto de não conseguir perceber a mensagem positiva que o filme deixa, vamo assistir de novo? garanto que você não vai se arrepender!

eu assisti pela primeira vez em 2018, achei incrível e amei cada segundo. fiquei bem sentida com a história, mas de um jeito bom. me emocionei com a determinação do miguel e achei linda a forma como a família dele volta a se entender depois de tanto tempo, sem contar no sorrisinho que eu abri quando vi que, no final do filme, ele tava lá bem pleno tocando seu violão. mês passado eu assisti de novo e gostei mais ainda! terminei de ver muito mais feliz do que eu tava antes de começar.

se você ficou triste quando viu, tenta mais uma vez. essa belezinha merece! ♡

sábado, 18 de janeiro de 2020

sorrir pra não chorar

2019 foi o ano em que eu perdi as esperanças.

parei de acreditar que as coisas iriam melhorar em algum momento próximo e aceitei que tava tudo ruim mesmo, que não ia acontecer um milagre divino pra resolver todos os problemas do mundo. a vida ficou cinza, mas pelo menos não me frustrei muito (só um pouco). 

o cenário político nacional foi horroroso, teve incêndio matando adolescente, incêndio destruindo floresta, prédio desabando, lama consumindo uma cidade inteira, 200 casos novos de feminicídio por dia, racismo a torto e a direito... e isso só no brasil, sem considerar que o mundo inteiro tava em colapso.

antes de sair de casa pra trabalhar eu já tava mal humorada. não tem como ser feliz vendo esse monte de notícia ruim às 7h da manhã.


depois de tomar meu café com gostinho de desespero, eu tinha que pegar um ônibus, o trem e o metrô pra cruzar a cidade e passar 8h do meu dia dentro de um escritório, embaixo de um ar condicionado da sibéria que me dava dor de cabeça todos os dias, quase sem ver a luz do sol - porque a claridade na tela do computador atrapalha a vista, claro. e ganhando pouco, como já era de se esperar.

se tudo corresse bem, meu trajeto de casa até o trabalho - e vice-versa - durava 1h15. como isso raramente acontecia (bem-vindo à cidade de são paulo!), normalmente eu passava quase 3h/dia só nesse ir e vir. não há bom humor que aguente esse tempo todo em pé, num transporte caro, precário e lotado, ouvindo que a água gelada tá 2 reais e tendo que dar licença pra pastor maluco pregar gritando na orelha de todo mundo. socorro.

daí que eu perdi a vontade de fazer as coisas. basicamente, eu tava seguindo em frente porque não tinha outra opção. fiquei triste, desanimada, desacreditando de tudo. a vida tava pesada, ficou difícil mesmo. em 2019 eu só reclamei. quando alguma coisa boa acontecia, eu era a pessoa que falava (ou pelo menos pensava, quando não dava pra externalizar) "tá, MAS...". sabe? tava foda.

e eu tentava evitar ser uma pessoa horrível e ranzinza, então fazia piada e sorria o tempo todo. fingia que tava tudo bem, mas na verdade eu queria gritar.

ninguém merece viver assim, pelo amor da deusa. então pra 2020 eu quero - e preciso - tentar ver as coisas pelo lado do copo meio cheio. ou pelo menos ver que o copo tá pela metade, sem focar necessariamente no fato de ele estar meio vazio.

o problema é que 2020 mal começou e já tá uma desgraça MAIOR do que o ano passado. aí fica complicado demais pra uma pobre mortal tentar encontrar positividade no meio desse mar de horror que a gente tá vivendo. me sinto até mal de tentar ficar feliz quando tá tudo dando tão errado. e o mais bizarro é que, aparentemente, as coisas não vão melhorar mesmo. daqui pra frente é só ladeira a baixo.

mas como não posso me afundar mais nas bad vibes (e pra não dizer que não tentei!!), vou tentar ser mais grata pelo que eu tenho, pelo que acontece de bom na minha vida e na vida das pessoas que eu amo. quero tentar recobrar um tantinho da fé nas pessoas, que eu perdi completamente. quero sentir coisas positivas - e me agarrar nisso - quando eu ver alguém fazendo algo de bom por outra pessoa ou pelo planeta... enfim. essas coisas que a gente costuma esquecer rápido porque tá muito ocupado prestando atenção nos absurdos que acontecem o tempo inteiro.


essa mudança de atitude não vai transformar o mundo, mas vai deixar minha vida mais fácil. e, consequentemente, se eu tiver menos negativa, também vai facilitar a vida de quem convive comigo. e é um primeiro passo, né? se eu tiver bem, posso contribuir mais, ajudar mais. já diria minha mãe: "se eu mudar, tudo ao meu redor mudará também". nem que seja só um tiquinho.

sábado, 22 de dezembro de 2018

stuck on a roller coaster

e 2018, hein, mores? que ano esquisito.

não foi exatamente ruim, mas teve muito momento baixo. por outro lado, não teve lá tantos altos assim, então não sei porque me fica essa impressão de que, no fundo, até que foi bom. acho que só pelo fato de não ter sido horrível eu já considero o saldo positivo. será que finalmente tô aprendendo a enxergar o copo meio cheio? ¯\_(ツ)_/¯

se eu tivesse que definir, diria que, mais do que tudo, esse foi um ano de encerramento de ciclos (uns mais felizes do que outros).

perdi minha avó. me formei na faculdade antes do tempo esperado e com notas muito boas. fiquei vários meses desempregada. trabalhei de casa por conta própria. arrumei meu primeiro emprego com carteira assinada. li vários livros bons. quase não chorei. tive menos crises de ansiedade, mas vivi por um bom tempo com o pensamento no futuro, sem conseguir efetivamente aproveitar o que o presente me oferecia. me senti inútil e despreparada em diversos momentos. não me arrependi de nenhuma das escolhas que fiz, mas questionei todas elas quando já não dava mais tempo de voltar atrás. me distanciei de pessoas que eu gosto, mas também me reaproximei de pessoas que tavam distantes e me fazem bem. escrevi com mais frequência. abandonei vários textos de ficção que eu comecei a escrever porque travei e não sabia mais o que fazer com eles (pode ser que uma hora eu termine, quem sabe...). consegui estabelecer uma rotina de exercícios físicos e minha autoestima cresceu. não cumpri a >única< meta de ano novo que eu tinha pra 2018. perdi toda e qualquer esperança em relação à sociedade brasileira, que se revelou ainda pior do que eu pensava. etc etc etc. 


eu tenho a impressão de que minha vida adulta tá começando só agora, que tô finalmente formada e dando início à minha carreira de verdade, como se todo esse tempo que veio antes tivesse sido só um teste, um período de adaptação pra eu me ajustar. tô com expectativas pros anos seguintes, não paro de fazer um zilhão de planos. mas daquele meu jeitinho: com os dois pés no chão, torcendo pra tudo dar certo, mas sem me decepcionar muito caso os sonhos não se tornem realidade.

pra 2019 eu só quero continuar fazendo tudo o que tá dando certo e parar de fazer o que não funciona tão bem assim. só isso. vamos viver sem grandes pretensões além de ser feliz. acho que tá bom, né? tomara que daqui um ano eu volte e diga que as coisas foram melhores do que eu poderia imaginar. :)

espero que, apesar de todos os altos e baixos que sempre se fazem presentes, o ano de vocês também tenha pendido pro lado positivo da balança. e desejo mesmo, de coração, que todo mundo seja cada vez mais feliz!

vem, 2019! (mas vem com carinho, não precisa chegar com os dois pés no peito não, tá? grata desde já.)


______

o post tá com cara de despedida, como se eu só fosse aparecer aqui de novo no ano que vem, mas juro que ainda volto daqui uma semaninha pra mostrar as leituras de dezembro! ;)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

beletrista

gente... EU ME FORMEI.

minha última aula foi em junho, porque teve greve na faculdade, mas em julho eu terminei de entregar todos os trabalhos finais e muito tempo depois, só em setembro, eu finalmente assinei minha colação de grau.

fiquei muito tempo pensando que eu deveria escrever sobre isso, porque foi um pedaço imenso da minha vida e porque eu não perdia tempo pra vir aqui falar mal do curso, dos colegas, dos professores etc. mas eu travei. comecei vários textos, mas larguei todos pela metade. eu não tava conseguindo me expressar, não sabia muito bem o que dizer.

mas basicamente é isso: depois de 09 semestres (um a menos do que o tempo padrão!) eu finalmente posso dizer em alto e bom som que sou graduada em letras pela usp, com habilitação dupla em português e inglês.

eu escolhi esse curso porque não sabia o que queria fazer da vida (agora eu acho que tô começando a descobrir). na escola, eu via meus amigos falando com certeza que queriam ser advogados, engenheiros, arquitetos, médicos... e eu só conseguia pensar "mas COMO você já sabe disso se a gente só tem 16 anos????". me senti pressionada a escolher, comecei a achar que o problema tava em mim, que talvez não levasse o meu futuro tão a sério ou sei lá.

fui pelo caminho mais óbvio: pensei nas matérias que eu gostava de estudar, vi em quais delas o meu desempenho era melhor e corri pro guia do estudante pra ver se me surgia uma luz no fim do túnel. no fim das contas, entrei na letras porque cismei que queria trabalhar com tradução. dei uma olhada na grade do curso e não entendi nem metade das matérias, mas achei que tava tudo bem. ia continuar estudando umas coisas que eu gostava e é isso, tava ótimo.

primeiro semestre e eu já tava querendo me esconder num buraco porque PELO AMOR DE DEUS NÃO É POSSÍVEL QUE É ISSO AQUI, socorro, alguém me ajuda etc. eram só quatro matérias: uma sobre ilíada e odisseia (eu nem sabia o que era isso), outra sobre linguística (eu também não tinha a menor ideia), a outra falava sobre a origem da língua portuguesa desde o protoindo-europeu (o quê?????) e sobre variação e preconceito linguístico, e a última era sobre poesia (que tinha tudo pra ser possível, estudar métrica, rima etc, mas o professor achou de bom tom colocar alunos recém saídos do ensino médio pra ler filósofo francês).

a carga de leitura do primeiro ano é tão grande que não tem aula de sexta feira, pro aluno dar conta de ler tudo o que os professores pedem.

eu não via a hora de começar logo a estudar gramática, mas esse dia nunca chegou. o primeiro banho de água fria com a letras veio quando eu descobri que esse tipo de coisa não fazia parte da grade curricular. aí você talvez esteja se perguntando: "mas se você não estudou gramática, você estudou o quê????". olha... muita coisa.

estudei livros clássicos gregos e latinos, muita literatura brasileira, muita literatura portuguesa, literatura americana, literatura inglesa, literatura africana de língua portuguesa e, de quebra, ainda li obras armênias, caribenhas e irlandesas. nesses quatro anos e meio eu li muitos romances, contos, poemas e peças de teatro nos dois idiomas. consequentemente, tive que ler muito texto teórico e de análise literária. e isso significa que também tive que estudar filosofia e história. cursei latim, cultura armênia, cultura italiana e pensamento da índia antiga. estudei sintaxe, morfologia, semântica, fonética e fonologia tanto em português quanto em inglês. também estudei teorias do texto e análise do discurso. cursei sociolinguística, psicolinguística e filologia. estudei teoria da tradução e tive muitas aulas práticas. fiz uma matéria de escrita criativa e, no final das contas, meu conto de ficção acabou sendo publicado na revista da faculdade (se quiser ler, tá aqui, na página 105).

por mais que eu tenha feito uma lista imensa, só dizer "os nomes" das matérias não faz jus a tudo o que eu aprendi nesse curso. estudar letras me enriqueceu muito como pessoa. tive contato com muita coisa que abriu meus olhos e me fez enxergar além do que eu conhecia. é óbvio que nem sempre eu gostava das aulas ou dos professores, mas o tanto de coisa incrível que eu estudei compensa as partes ruins.

não posso deixar de dizer que em determinado momento (talvez no segundo ano, agora já não lembro direito) eu questionei a minha escolha e pensei seriamente em sair e procurar outra coisa, mas eu tinha certeza que nenhum outro curso me faria mais feliz do que aquele. ainda que eu não soubesse o que fazer com ele depois de me formar, eu amava o que eu tava estudando. a bagagem que a letras me proporcionou é gigantesca e olha que eu não aproveitei nem metade do que a faculdade tinha pra me oferecer.

quando eu decidi que queria ser tradutora, eu não imaginava que mudaria de opinião tantas vezes a respeito da minha carreira. pensei que eu entraria na faculdade, leria uns livros, estudaria língua portuguesa e inglesa e terminaria focada em traduzir. eu não fazia ideia do tanto de coisa diferente e incrível que a letras ia me proporcionar. não foi por isso que eu escolhi fazer o curso, mas foi por isso que eu escolhi continuar até o final.

pode ser que eu tivesse mais sucesso financeiro se tivesse feito qualquer outra coisa. ou que eu tivesse mais prestígio, que as pessoas olhassem pra mim e pro meu diploma com mais respeito e admiração. mas nada disso supera o calorzinho no coração de ter concluído uma graduação riquíssima, que efetivamente me deixou realizada e orgulhosa de mim e do que eu escolhi.

apesar de toda a parte ruim, eu digo com tranquilidade que é uma delícia ser beletrista.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

ah, se ela soubesse...

Lila se olhava no espelho, apreensiva, pensando se deveria ou não trocar de roupa. Não tinha a menor intenção de demonstrar que passara duas horas se arrumando; queria parecer o mais natural possível. Depois de uma análise fria sobre a sua aparência, resolveu apenas trocar os brincos. Enfim, a moça ficou satisfeita com o resultado final. Sentia-se linda, leve e feliz.

Conferiu o celular pela última vez antes de sair de casa. A mensagem de Pedro estava lá, enviada apenas dez minutos antes, avisando que ele já estava indo ao local marcado: um barzinho novo, bem no centro da cidade. Lila sorriu, pegou sua bolsa e se dirigiu ao ponto de ônibus torcendo para que tudo desse certo.

Era uma noite quente de primavera. As ruas estavam barulhentas, do jeito que Lila mais gostava. Músicas altas saíam de dentro dos carros em movimento, pessoas conversavam e davam risada, cachorros latiam e corriam, aparentemente despreocupados. A brisa fresca que batia contra a sua pele era reconfortante. Lila consultava o relógio a cada dois minutos, com medo de se atrasar demais. Ela não queria estragar tudo por chegar muito tempo depois do horário combinado. Sentia que, pela primeira vez, as coisas estavam realmente se encaixando. Como se daquela vez tudo fosse dar certo.

O encontro com Pedro foi ainda melhor do que ela esperava. A conversa entre eles fluíra de forma natural, sem que nenhum dos dois precisasse se esforçar pra continuar o assunto. Na hora da despedida, Lila ganhou um beijo demorado na bochecha e um abraço que deixou sua roupa com o cheiro do perfume dele. Menos de cinco minutos depois do tchau, Pedro já estava mandando uma mensagem sugerindo o local do próximo encontro. Lila tinha certeza de que havia finalmente encontrado o amor da sua vida.

Ao chegar em casa, ainda sorrindo ao pensar em Pedro, a moça decidiu confirmar as coisas antes de se deixar iludir. Ligou para sua amiga Bruna, uma renomada vidente que efetivamente era capaz de ver o futuro e as suas possibilidades. Bruna sabia melhor do que ninguém o quanto Lila já havia sofrido por causa de seus relacionamentos passados. Foi assim que as duas se conheceram, inclusive. Depois de muito se decepcionar com os seus romances fracassados, Lila descobriu os serviços de Bruna e, desde então, passou a contar com a ajuda dela para decidir o que fazer. Antes de consultar sua bola de cristal, Bruna quis saber de tudo sobre o encontro dos dois. Quando a amiga terminou de contar, a vidente estava tão ansiosa quanto ela.

A respiração de Lila estava acelerada. Era impossível controlar o nervosismo; ela queria muito que Pedro fosse o homem certo. Assim que Bruna lhe garantiu que o destino dos dois não era o que ela queria ouvir, Lila sentiu suas pernas fraquejarem. “Desculpa, amiga. Pedro não é a pessoa com quem você vai passar o resto da sua vida”. Lila chorou e se perguntou se algum dia ela encontraria essa pessoa. Se Pedro não era o homem certo, então quem seria? Bruna tentou contar o resto das suas previsões, mas Lila não deixou. Precisava se desvencilhar de Pedro o mais rápido possível, antes que os dois se envolvessem demais. Limpando as lágrimas, a moça respondeu com palavras frias a mensagem carinhosa que havia recebido, colocando abruptamente um ponto final numa história que mal havia começado.

Como Lila não deixou sua amiga falar, ela não ouviu a parte boa das previsões. Lila só soube que não ficaria com Pedro para o resto da vida e, não querendo mais sofrer com términos, preferiu terminar esse romance antes que ele evoluísse. Mas ela não teve a oportunidade de saber que, caso eles ficassem juntos, teriam vivido uma história de amor incrível. Não seria eterna, é verdade, mas será que isso era realmente tão importante assim? Lila nunca soube que seu relacionamento com Pedro teria durado seis anos e que ela teria sido a pessoa mais feliz do mundo durante aquele período. No fim das contas, os dois precisariam se separar, mas nenhum dos momentos bons teria sido apagado. As recordações felizes continuariam dentro dela, fazendo com que ela sempre nutrisse sentimentos bons em relação a Pedro e ao que eles viveram juntos. Sem traumas, sem cicatrizes. Apenas uma saudade boa de uma época muito prazerosa, mas que infelizmente não tinha como continuar.

Talvez, se ela soubesse disso, Lila teria dado uma chance a eles. Mesmo querendo evitar ao máximo se machucar de novo por causa de um relacionamento mal sucedido. Se ela soubesse que o saldo positivo seria infinitamente maior do que o negativo, talvez ela não tivesse desistido antes mesmo de tentar. Se ela soubesse que não ficaria com Pedro pra sempre, mas que ele definitivamente era sim o amor da sua vida, ela com certeza teria tentado. Ah, se ela soubesse...

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

20. pra fechar o curso com chave de ouro

desde que eu entrei na faculdade eu vejo as pessoas falando nos grupos do facebook sobre os professores incríveis e maravilhosos e impressionantemente bons que existem por lá, aqueles professores que todos amam de paixão e que dão aulas extraordinárias etc etc etc. eu já tive aula com diversos desses docentes amadíssimos e, sinceramente, nunca me encantei muito com nenhum deles.

ou o professor era realmente muito bom dando aula mas era uma pessoa uó, ou era uma pessoa incrível mas a aula era bem meia boca, ou era uma pessoa legal e dava uma aula boa mas foi tão desorganizado com as avaliações que perdeu até o encanto e por aí vai. eu nunca tinha conseguido gostar de verdade mesmo de nenhum professor, em algum momento do semestre eu sempre ficava com aquele gostinho de decepção na boca.

até que no último semestre eu resolvi me matricular numa matéria que eu não tinha a menor vontade de cursar e que tinha tudo pra ser um erro absoluto. daí que eu fui agraciada com o único professor da graduação que me fez feliz do começo ao fim e que eu sentia vontade de abraçar de tanto amor.

como não amar um homem que usa MEIA DE RAPOSA?

eu tenho 0 interesse em estudar poesia, mas o último semestre é aquele momento em que você cursa o que tiver disponível pelo simples motivo de PELO AMOR DE DEUS DEIXA EU ME FORMAR!!! então corri o risco. primeiro dia de aula e só então foi que a turma (que era bem pequena, umas 20 pessoas no máximo) descobriu que o professor era nativo americano. foi um misto de yay! com deus me dibre e guarde. aí o moço contou que nasceu nos eua, mas a família é cubana então a primeira língua dele é espanhol e, por isso, ele tinha um nível mais ou menos ok de português. terminei a primeira aula animadíssima porque por mais que eu odiasse a ideia de passar um semestre estudando poesia em língua inglesa eu já tava decidida a amar este homem.

as aulas foram passando e eu só gostava dele cada vez mais, não tinha 01 defeito pra botar no professor. fofíssimo como pessoa, dava vontade de sentar pra tomar cafézin junto. a aula era boa, era divertida, ele realmente se interessava em ouvir os alunos e queria saber nossa opinião sobre várias coisas. o único problema é que essa matéria era dada às 8 da manhã às segundas feiras...... e, sendo assim, muita gente faltava. eu me sentia mal de faltar, porque aconteceu várias vezes de ter só umas dez pessoas na sala e ele obviamente já tinha decorado o nome de todo mundo, então eu me obrigava a ir hahaha mas eu nunca me arrependi :)

por conta da greve na faculdade, o método de avaliação foi um único trabalho de análise literária sobre o romantismo inglês. além de esse ser um tema insuportavelmente chato, eu sou HORRÍVEL analisando poesia. fiz um trabalho mental pra conseguir me convencer a continuar gostando do professor mesmo se eu tirasse uma nota média, porque a culpa de ir mal teria sido minha e não dele (tão fácil falar que o professor te deu nota ruim em vez de admitir que você fez um trabalho meia boca!), mas a cereja do bolo foi eu ter tirado 8!!!!!!!!! e ele ainda devolveu os trabalhos comentados ponto a ponto, justificando a nota e tudo mais. QUE HOMEM.

agora o bonitinho já voltou pros eua e quem não fez aula com ele infelizmente perdeu uma baita oportunidade. ele ficou pouco porque veio pro brasil pra estudar, se eu não me engano ele é especialista em romance latino-americano, daí aceitou o convite da faculdade pra assumir essa matéria. sentirei saudades reais do meu professor preferido da graduação todinha ♡ (e só dele mesmo, do resto eu quero mais é me distanciar!)

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fun fact: ele era VICIADO em guaraná zero (disse que o normal era muito doce) e passou uma aula inteira falando sobre isso sempre que surgia a oportunidade. e às vezes quando não surgia também, ele tava impossível, botava o refrigerante no meio do assunto a cada dez minutos. ^^

quinta-feira, 7 de junho de 2018

07 anos de pura resiliência

a nina é a melhor criança que eu já conheci. tá no top 10 pessoas que eu mais amo no mundo. e ela me ensina tanto, mas tanto, que nem parece que a professora sou eu. 

a gente sempre tem umas conversas maravilhosas. às vezes eu esqueço que ela é tão pequena, de tão inteligente e madura que a bichinha é - só pra vocês terem uma noção, ela tá no segundo ano do ensino fundamental, o equivalente à antiga primeira série, e já tá estudando comparativo e superlativo nas nossas aulas de inglês porque ela avançou mais de três anos em relação ao conteúdo da escola. 

mas ela ainda tem sete anos de idade, né? é uma nenê, praticamente. <3

e, além da escola regular (das 07h às 16h) e do curso de inglês, ela ainda faz aula de piano, informática, coreano (aos sábados) e ensino religioso (na igreja coreana, aos domingos de manhã!). antes tinha natação e taekwondo aí no meio também, mas a vida da ninoca tá meio sem esportes ultimamente.

daí que essa semana ela tava reclamando sobre ter que fazer muita lição e rolou o seguinte diálogo:

- eu odeio a escola coreana!
- sério que você não gosta?
- é muito chato! eu tenho que ir todo ano, todo mês, toda semana!!! 😠
- então por que você faz? seus pais te obrigam?
- não 😦
- mas eles sabem que você não gosta?
- sabem, a mamãe até me perguntou se eu queria parar no próximo semestre...
- e você falou o que?
- que não quero 😅
- e por que não???? você acabou de dizer que odeia!
- é, mas eu quero ir pra coreia algum dia e vou precisar falar coreano, né?
- bom, olhando por esse lado...
- é muito chato, mas a gente acostuma, né? 
- ah isso é verdade, a gente se acostuma com tudo nessa vida...
- eu não gosto, mas é importante fazer, então eu faço.

MANO. DO. CÉU.

eu só concordei e sorri, meio abobalhada, pensando na minha sorte em ter cruzado o caminho dessa criança. gente, sério. vocês não ficam chocados de saber que esse tiquinho de gente tem tamanha inteligência emocional?

essa menina virou minha inspiração pra vida inteira. sem contar que ela não se incomoda em errar, dá risada quando isso acontece e tem uma autoconfiança gigantesca. se algum dia eu for metade do que ela é, pra mim já tá bom.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

19. criança também é gente

eu dou aula de inglês, né. e não é em uma escola regular, então eu tenho alunos variadíssimos de 06 a 70 anos. como eu não recebi absolutamente nenhum tipo de treinamento pra saber como lidar com eles e as suas diferenças, tive que aprender no dia a dia mesmo, na cara e na coragem, o que funciona e o que não rola pra cada um desses alunos.

lembrando que eu não sou formada em pedagogia, nem faço licenciatura, o que significa que a faculdade me preparou 0% pra lidar com crianças. pois bem.

tem esse menino que eu dou aula, o pedro. ele tem 07 anos. ele é um dos alunos que mais dão trabalho lá na escola (só não digo que é o pior de todos porque tem uma pequenininha que faz tanto escândalo chorando que alguns alunos já trocaram de horário só pra não estarem lá no mesmo momento que ela, mas ele fica fácil em segundo lugar no ranking).

quando o pedro começou as aulas de inglês, as professoras da matemática e do português vieram avisar que ele era uma criança difícil. e, realmente, nas nossas primeiras aulas ele me tirava do sério com uma facilidade impressionante. até que eu descobri como contornar a situação e, de repente, sem precisar de muito esforço, nossa relação ficou ótima e ele passou a ser uma criança fofinha e maravilhosa que nem as outras.

"e qual é o segredo?", você me pergunta. pois eu te digo: é tratar o menino com educação e respeito, em vez de perder a linha. simples assim. :)

no dia em que ele me fez chegar no meu limite, eu botei a mãozinha na consciência e pensei "eu não vou me descontrolar com esse menino, ele só tem sete anos. tem muito adulto que me irrita tanto quanto e eu mantenho a pose, por que com ele tem que ser diferente? o bichinho é pequeno mas também é uma pessoa, né? se sou capaz de me controlar com adultos insuportáveis, por que não com as crianças?". e aí o pedro se transformou. ele passou de reclamão irritante pra um menino incrível.

nesse dia, quando ele começou a dar show, em vez de eu "responder a altura" e perder a linha, que é o que ele tá acostumado a ver, eu sentei do lado dele e perguntei por que ele tava sendo mal educado. o menino me olhou confuso e disse "eu não sabia que isso era ser mal educado". a gente conversou e pronto, ele parou de dar piti e passou a se comportar bem. ele aprendeu que, se ele colaborar comigo, eu também vou colaborar com ele. depois que eu expliquei que a nossa relação é uma troca, ele nunca mais foi mal educado nas aulas de inglês. pelo visto, até aquele momento, ninguém tinha se dado ao trabalho de simplesmente dialogar com o menino.

pedroca realmente não é das crianças mais "fáceis" do mundo, daquelas que você manda e desmanda e a criança apenas te obedece, sem questionar. ele é inteligente e faz questão de saber os motivos de tudo o que acontece. por que aquela lição, por que ele tem que fazer as coisas de um jeito e não de outro, por que por que por que. e ele bate o pé e reclama sempre que não quer fazer alguma coisa, mas é só falar com o menino normalmente, respeitando a pessoinha que ele é, que tudo se ajeita.

antes o pedro ficava de cara feia a aula inteira, contando os minutos pra acabar e poder ir embora. ele mal respondia quando a gente perguntava alguma coisa. agora a gente conversa, brinca, dá risada e ele faz a aula feliz, porque se sente confortável naquele ambiente em que ele é bem tratado. pedroca virou uma das minhas crianças preferidas. <3  

terça-feira, 20 de março de 2018

88 anos, 8 meses e 14 dias


dona cida nasceu em 1929, lá no começo do século passado, e se despediu da gente há menos de uma semana.

filha de imigrantes italianos, nascida e criada em fazenda no interior do estado de são paulo, veio morar na capital e, aqui, conheceu o futuro marido: um alagoano descendente de negros e índios, um ano mais novo que ela. juntos, eles tiveram quatro filhos. um deles, o mais velho, é o meu pai. 

e isso é basicamente tudo o que eu sei sobre a história dela. 

minha avó me contou quando e como conheceu o meu avô, mas eu não sei quando eles se casaram. não sei se foi por "amor à primeira vista", se foi por pressão familiar, se foi porque os dois conversaram e decidiram que era a melhor das opções. ela nunca foi de falar muito sobre a própria vida. às vezes, no meio de alguma conversa, ela me contava casos aleatórios sobre eles, mas nunca em quantidade suficiente pra eu conseguir montar uma linha do tempo, por exemplo. dona cida era fechada demais, não se dava ao luxo de falar mais do que devia. não sei do que ela trabalhou, não sei quais planos ela tinha feito quando era menina, não sei sequer qual era a cor preferida da minha avó - mas associo a ela um tom bonito de azul claro, meio céu, meio piscina: a cor dos olhos dela.

apesar dessa carinha aí da foto, a dona cida nunca fez aquele estilo padrão de avó que eu via na tv. o meu sonho era ser neta da dona benta, pra comer um monte de coisa gostosa todas as tardes. dona cida só cozinhava porque comer faz parte da vida, não tinha essa de ficar fazendo bolinho pra agradar neto. lembro que uma vez fui almoçar com ela e reclamei que não queria comer o chuchu. como resposta, ouvi "você tá na minha casa, vai comer o que eu fiz. se não quiser, fica com fome". ela era grossa e mal educada como ninguém. mas não posso negar que às vezes batia uma inspiração e ela tentava encarnar a vovó bonitinha. fizemos rabanada juntas uma vez. não sei como é que conseguimos errar tanto, mas depois disso nunca mais nos arriscamos a tentar de novo. muitos anos depois, ela ainda dava risada lembrando dessa tentativa absolutamente frustrada.

ela era super irritada, não tinha paciência pra nada. vivia falando que tava com raiva das coisas, das pessoas. tudo era motivo pra mulher ficar de cara fechada. e sem precisar dizer uma palavra, ela já botava medo nos netos (ameaçava sempre com um chinelo na mão) e afugentava os vizinhos. mas por dentro ela era frágil que só. a menor das coisas já magoava a minha avó, ainda que ela tentasse ao máximo não deixar transparecer.

ela sofreu muito. guardou mágoa e rancor durante a vida inteira, se recusou a fazer os tratamentos de saúde que poderiam ter aliviado as dores que ela sentia, engoliu muito sapo enquanto foi casada... dona cida passou por tanta coisa nesses quase 90 anos que nem dava pra acreditar. lembro de olhar pra ela quando eu era pequena e pensar que a minha avó, tão alta, tão rígida, deveria ser uma fortaleza. de uns anos pra cá, ela já era só ruína.

mas ainda assim, mesmo já quase sem força nenhuma, esse ano ela ainda foi capaz de provar que o ditado popular é verdadeiro: vaso ruim não quebra. ou, pelo menos, dá mais trabalho do que o normal. aos 88 anos, lúcida mas com o corpo absolutamente debilitado, minha avó enfrentou um avc, deu um chapéu numa pneumonia e ainda lidou com outras infecções que vieram depois. eu sinceramente não pensei que ela fosse aguentar uma semana, mas ela ainda persistiu por dois meses. foi sofrido, foi ruim de ver, mas era a história dela. e ela aguentou até o final com uma força que eu não faço ideia de onde é que saía. 

dona apparecida, com 2 pês (eu achava tão chique esse nome), me deixou uma saudade tão grande que eu acho que nunca vai passar. mas eu sei que ela não via a hora de finalmente poder descansar em paz, sem sentir aquelas dores que viviam com ela há tanto tempo. por mais difícil que seja a despedida, eu sei que era egoísta demais querer que ela continuasse por aqui. já tava na hora de dizer tchau.

a vovó já foi, mas o amor e as lembranças vão ficar aqui bem guardadinhos até o fim da minha caminhada.

sábado, 6 de janeiro de 2018

laranja, amarelo e azul

2018 começou do jeito que eu menos gosto, mas que eu mais preciso: me lembrando que a vida é um troço maluco, incontrolável e sem explicação. levei um choque de realidade e, infelizmente, a bolha em volta de mim estourou. aquela bolha que me dava uma sensação falsa de segurança, que me colocava numa posição diferenciada, especial. percebi que eu não tenho nada de diferente, nada que me dê uma garantia extra. tô aqui como qualquer outro, suscetível a tudo como qualquer outro. e isso me deixa doida.


anteontem, quando vi esse pôr do sol incrível de tão bonito, minha cabeça tava fervilhando de coisas. eu queria escrever, queria tirar de mim esse monte de dúvida que tava me cercando. hoje, muitas horas depois, já bem mais calma, eu perdi o pique. é que eu funciono melhor quando tô inflamada, ou pelo menos minhas ideias fluem melhor. porque eu racionalizo menos. se eu começo a pensar demais, parece que eu fico travada. o que pega mesmo é que eu tenho medo de tudo que eu não entendo, de tudo que tá além da minha capacidade de raciocinar. e isso afeta desde a minha produção escrita até todo o resto, pra ser bem sincera. então eu não vou mais falar sobre o que eu queria, não vou mais tentar passar pro papel o que eu tava sentindo e pensando. vou deixar tudo isso guardadinho aqui pra uma próxima oportunidade, talvez. e vou falar de outra coisa, algo mais fácil, que me exige menos esforço. 


pôr do sol é um dos fenômenos da natureza (ou sei lá como a gente chama esse tipo de coisa) que eu mais amo. enche os olhos, enche a alma. é lindo, encanta, dá vontade de fazer durar por uma eternidade no céu. sabe quando o pequeno príncipe fala que tava num planetinha tão pequeno que viu o sol se pondo quarenta e três vezes no mesmo dia? que delícia que deve ter sido isso. sempre que eu vejo essa mistura de cores, eu agradeço. por estar aqui por mais um dia, por tudo o que eu tenho, por tudo o que eu ainda vou ter. e o que eu acho mais incrível é que o pôr do sol me faz sentir em paz. normalmente a natureza me assusta, a imensidão do universo me assusta, a força de tudo o que vai além do ser humano me assusta. mas as cores no céu quando o sol tá indo embora me deixam mais calma, elas me mostram que tá tudo bem. é como se fosse um dos únicos momentos do dia em que eu me reconcilio com o fato de a vida ser indomável, eu acho. é meio forte falar isso, talvez eu esteja exagerando, mas é a sensação que me dá.  


não sei de onde eu vim, não sei pra onde eu vou, não sei quanto tempo eu ainda tenho aqui. a única coisa que eu sei é que, se eu pudesse, eu também contemplaria o sol se pondo mais de quarenta vezes no mesmo dia. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

memória olfativa e seus mistérios

as adversidades da vida acabaram me afastando da minha madrinha, já faz muitos anos que a gente não tem contato uma com a outra. as lembranças que me restam da época em que passamos juntas são bem pontuais, já me esqueci de muita coisa (por exemplo, lembro de estar passando a novela o cravo e a rosa em um dia em que eu estava na casa dela, mas já não sei mais o que fizemos além de ver tv). eu não consigo mais lembrar de quase nada. nem do som da voz dela, nem de como ela estava vestida da última vez em que a gente se viu. nada.

até que esses dias a memória dela voltou nítida pra mim. sem mais nem menos, a imagem da minha madrinha brotou na minha mente assim que uma aluna sentou do meu lado. a princípio eu não entendi. elas não se parecem fisicamente, não têm o mesmo nome, a mulher nem falou nada que pudesse ser relacionado à minha madrinha. mas ainda assim a lembrança dela me atingiu em cheio.

a única coisa que eu consegui pensar foi que o cheiro de cigarro que a aluna exalava devia ser o mesmo da minha madrinha. e eu nem sabia que ela fumava (minha mãe confirmou que sim).

as bifurcações pelo caminho nos fizeram andar pra lugares diferentes (não a culpo por ter se distanciado e nem me culpo por ter aceitado isso tão bem), mas pelo visto ela continua comigo. fiquei feliz de constatar que ainda guardo um pedacinho dela tão presente dentro de mim - mesmo que ele esteja relacionado ao cheiro do cigarro, algo que eu não suporto.

madinha: onde quer que você esteja, espero que esteja bem. <3

quarta-feira, 26 de julho de 2017

eu caí no golpe do instagram

convenhamos que já faz muito tempo que eu tô na internet né, gente (não que fosse tudo mato quando eu cheguei, mas ainda era um lugar relativamente em construção). então me custa um pouco admitir que eu caí no golpe mais ridiculamente detectável de todos os que existem nessa famigerada rede mundial de computadores: o da vida perfeitamente feliz.

não é de hoje que a gente sabe que não dá pra confiar em tudo que a gente vê online, ainda mais no instagram. mas mesmo assim eu me deixei enganar. o twitter tá aí pra gente reclamar da vida, o facebook é um lixão a céu aberto, mas o instagram é uma desgraça!!! porque ali ninguém posta foto feia, ninguém coloca a parte ruim. é só comida gostosa, roupa bonita, role legal, viagem.. 

e que quantidade absurda de viagem, hein? eu fico com a impressão de que sou a única pessoa da história do brasil que tá em casa, absolutamente todas as outras tão viajando e se divertindo e conhecendo um monte de lugar lindo enquanto eu tô presa nessa rotina bosta de trabalho. 

só que a parte bizarra é que EU SEI que a vida de ninguém é assim tão maravilhosa. eu mesma só posto no instagram o que eu considero legal, não coloco foto minha em pé no ônibus às 20h30 chorando de fome. tem foto minha e do boy cheios de amor, tem selfie bonita de quando a autoestima tava alta, tem foto antiga de quando eu tava pagando de gatinha na praia. mas foto minha perdendo mais de uma hora no banco pra resolver um problema com o cartão é claro que não vai ter. a regra implícita do instagram é que ali a gente só expõe a parte boa.

e ainda assim, mesmo tendo plena consciência disso, eu fico mal vendo as fotos. mesmo que o meu próprio feed só tenha a parte bacana. parece que a vida de todo mundo é muito mais legal, muito mais interessante, muito mais divertida. a galera tá dando role na europa, tá conhecendo o brasil, tá indo pra restaurante caro. e eu tô na mesa do trabalho rolando as fotos e curtindo todas (todas mesmo, sou dessas que dá like indiscriminadamente) com aquele sentimento amargo de "não é possível que só eu tenha essa vidinha mais ou menos". 

já diria o ditado: todo mundo vê as pinga que eu bebo, mas não vê os tombo que eu levo. o problema é que, nesse momento, o que eu sinto é que só eu levo tombo. parece que a vida das pessoas só tem a parte da pinga. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

sobre o que realmente importa

eu sou 100% meninas que não conseguem viver o presente e ficam pensando incessantemente sobre o futuro (ansiedade né, que coisa boa), então é óbvio que eu já tenho um milhão de planos - e que eu não tenho necessariamente a pretensão de colocar todos eles em prática, porque sou ansiosa mas não sou tão trouxa assim e já me basta de decepção nessa vida. 

daí que eu separo esses planos em algumas categorias. tipo: "meta de vida", "seria muito legal mesmo se de repente isso acontecesse em algum momento", "farei quando terminar a faculdade", "quero antes dos 30", e coisa e tal.

um dos meus planos pra um futuro de preferência próximo (digamos que a categoria desse seja "o mais rápido possível mas tudo bem se for daqui a alguns anos a vida é assim mesmo") é pegar minha mochilinha, dar a mão pro boy e caçar um cantinho pra chamar de nosso em algum lugar longínquo desse mundão de meu deus. e na verdade nem precisa ser tão longínquo assim, ali no uruguai eu já me dou por satisfeita, mas o plano é que o nosso cantinho se encontre em terras estrangeiras. 

preciso fazer um adendo pra dizer que amo d+ a minha terrinha, então mesmo querendo muito ir morar fora (porque afinal de contas o mundo é muito grande e não tem a menor graça passar a vida inteira no mesmo lugarzinho sendo que tem tanta coisa incrível pra ver por aí) eu pretendo voltar obviamente pois brasilzão véio de guerra melhor país de todos apesar dos apesares etc etc etc.

eis que eu e o digníssimo senhor boy estávamos conversando sobre como seria a nossa vida morando em outro país e começamos a pensar em coisas sérias, tipo como a gente ia fazer pra pagar as contas, que tipo de visto a gente ia precisar pra entrar nesse tal outro país e ficar morando lá ("mas será que já dá pra entrar com visto de trabalho sem ter um trabalho antes???"), esse tipo de coisa. até que a gente se deparou com a maior das nossas agruras e já começamos a pensar em soluções pra superar esse transtorno, mas ainda não sabemos como driblar de vez esse obstáculo.

no momento a nossa maior preocupação é: E O PÃO FRANCÊS? COMO QUE A GENTE VAI VIVER SEM PÃO NA CHAPA DE MANHÃ MEU DEUS DO CÉU ISSO NÃO VAI SER NADA FÁCIL

porque convenhamos que não ter como se manter em outro país é um problema grave, mas não ter aquele pãozinho francês esperto pra matar a fome de manhã é um problema GRAVÍSSIMO!

terça-feira, 9 de maio de 2017

17 e 18. fazendo amigos no transporte público

não me sinto confortável conversando com gente desconhecida. pra mim é um sofrimento real ter que interagir com quem eu não conheço. fico sem saber o que fazer, o que falar, enfim. acho uó, de verdade. mas aparentemente tem algo na minha cara que faz com que toda e qualquer pessoa que passe pelo meu caminho puxe assunto comigo. não consigo entender o que rola, mas parece que eu tenho um ímã que realmente atrai as pessoas. apesar de andar na rua fazendo ~cara de poucos amigos~, bem fechada mesmo, pra tentar evitar ao máximo que os outros se aproximem (#meujeitinho), a galera continua me pegando pra cristo e vindo conversar.

daí que eu fiz "amigos" no ônibus esses dias.

eu tava de boinhas sendo meu livro até que sentou um adolescente do meu lado. a mãe dele tava junto e ficou em pé. falei pra moça que eu ia levantar pra ela sentar, porque tinha outro banco vazio e era só eu mudar de lugar. ela disse que não precisava, que não queria sentar. tentei voltar a ler o livro, mas o menino me ofereceu uma bisnaguinha pra comer. quis dar risada pelo absurdo da situação, mas só agradeci e voltei pra minha leitura. aí a mãe dele perguntou se eu podia abrir a janela, apesar de estar chovendo. ela fez uma piadinha sobre a água, eu dei risada por educação e desisti de voltar à leitura, porque percebi que aqueles dois não iam me deixar quietinha no meu canto.

guardei meu kindle na mochila e fui limpar meu óculos, porque as lentes estavam cheias de pinguinhos d'água (tomei chuva antes de chegar no ponto de ônibus). aí a mãe do menino começou a puxar assunto comigo - eu demorei pra perceber que era comigo, ignorei as primeiras duas frases da mulher - e contou que precisava fazer exame de vista, que o pai dela usava óculos e deveria ser hereditário. eu sorri, disse apenas "é, faz sim.." e acenei. ela continuou falando. daí o menino finalmente entrou na conversa e, desde então, não ficou quieto nem por um segundo.

primeiro ele me perguntou como eu fazia pra assistir a filmes 3d no cinema, já que uso óculos. depois, não sei como, o assunto mudou totalmente e ele me contou o dia dele inteirinho na escola. falou onde estuda, em qual série ele tá, qual matéria ele gosta, o que ele tinha comido no lanche... eu não sabia o que responder, só fiquei dando risada mesmo. primeiro porque rir é o que eu faço quando fico sem reação, segundo porque achei mesmo tão bizarro ele me falar tudo aquilo sem eu perguntar que dar risada foi meio natural. depois ele me contou onde mora, quantos ônibus pega pra chegar em casa, disse que tem um fluxo de funk na rua da casa dele de fim de semana que faz o ônibus mudar de rota e isso atrapalha o bairro todo... enfim. foram 30 minutos de ladainha. às vezes eu encorajava o menino a continuar, porque não dava mais pra fugir, às vezes eu me desligava da conversa e perdia uns dois minutos de fala. e assim fomos da hora em que eles entraram no ônibus até o ponto final, onde nós todos descemos.

eu não suporto conversar com quem eu não conheço no transporte público, mas também não consegui cortar o papo do menino e da mãe dele. os dois eram tão simpáticos que eu não pude evitar.

se eu preferia ter ficado quietinha lendo meu livro? definitivamente. se eu gosto de pensar na possibilidade de encontrar os dois de novo e retomar essa conversa? jamais. mas não foi de todo ruim. deu pra ver que eles ficaram felizes de encontrar um ouvido disposto a escutar tudo o que eles tinham pra dizer, ainda que não fossem lá grandes coisas.

vai ver a minha cara de poucos amigos não é tão eficiente quanto eu pensei que fosse...

sábado, 8 de abril de 2017

16. "sabia que eu sou tagarela?"

uma das minhas funções no estágio novo é acompanhar duas menininhas pequenas, separadamente, enquanto elas fazem as tarefas de inglês. a gi tem 5 aninhos e é descendente de japoneses, a nina tem 6 e é descendente de coreanos. por mais que a japonesinha seja uma graça, a coreana é apenas o amor da minha vida e a salvação da minha semana. essa menina é um absurdo de tão maravilhosa.

no nosso primeiro dia juntas ela já começou me avisando que não parava de falar. sendo ela uma criança muito sábia, tinha consciência de que já era melhor me avisar logo no começo que ela era tagarela mesmo e eu não podia fazer nada a respeito, apenas aceitar a vida como ela é. e a menina realmente não para de falar nem por um segundo, é impressionante. às vezes fico meio agoniada, porque vai dando a hora do pai dela chegar pra buscar os filhos e ela ainda não terminou as lições, mas nada que um "nina, seu pai vai chegar daqui a cinco minutos!" não resolva ;)

o tanto de risada que eu dou com essa criança não tá escrito! aliás, ela mesma já fala rindo porque sabe que é engraçada, por mais que às vezes eu tente manter a compostura pra ver se com a minha cara de séria ela se convence a parar de graça e voltar a fazer os exercícios. spoiler: nem sempre funciona.  ¯\_(ツ)_/¯

dia desses, enquanto ela fazia as lições em classe, eu tava corrigindo as lições de casa que ela trouxe. de repente senti que tinha algo diferente no ar. quando levantei os olhos do papel, dei de cara com ela a pouquíssimos centímetros de mim, segurando o riso, só esperando eu perceber que ela estava ali. é claro que eu me assustei quando vi e a doida desatou a gargalhar, como se aquela fosse a coisa mais engraçada do mundo. e naquele momento foi mesmo. deu vontade de roubar essa criança pra mim e não devolver nunca mais <3

é incrível o quanto a gente se apega rápido quando a criança é cativante, né? parece que a gente se conhece há tempos, de tanto que eu gosto dela. são cinquenta minutos juntas ensinando, aprendendo e rindo sem parar. é muito mais do que só o inglês. ela me pergunta o significado das palavras que não conhece (esses dias ensinei pra ela o que era uma empadinha e o que significava chamar uma pessoa de abelhuda) e ela me ensina como fala algumas coisas em coreano. eu obviamente não aprendo nada, mas ela se convence de que é uma ótima professora mesmo assim. aliás, a criatividade da menina é tanta que ela me ensinou como se desenha um porquinho sem usar nem lápis nem papel, só descrevendo quais os traços se deve fazer pro porco aparecer. achei genial, porque eu realmente consegui visualizar um porquinho na minha cabeça hahaha

às vezes eu me arrependo um tantinho por ter aceitado esse estágio de auxiliar de professora, é cansativo pra caramba passar a tarde inteirinha corrigindo lição e tirando umas dúvidas absurdas dos alunos que na maioria dos casos nem queriam estar ali. mas aí eu lembro que se não tivesse começado a trabalhar ali eu provavelmente jamais teria conhecido essa pequena maravilhosa e fico mais aliviada. nem sempre eu tô motivada a ir pro trabalho feliz, mas pelo menos de terça e quinta eu tenho um gás a mais, porque sei que a nina vai estar lá pra me proporcionar os melhores momentos da semana.

ela não faz a menor ideia disso, mas sempre que pega na minha mão ou me conta alguma coisa aleatória sobre o dia dela na escola o meu coração fica quentinho, quentinho. :)